O que é Corpus Christi?

Mística, Papa, teólogos e multidões deram

origem à  festividade eucarística

do Corpo de Cristo

  ESTÁ começando uma solene reunião de eclesiásticos com o Papa. Ano de 1264. Já fazem alguns dias que Urbano IV os tinha incumbido de redigir textos destinados à nova festa que ele quer instituir para toda a Igreja em homenagem à Eucaristia, o Corpo de Cristo. O Pontífice vai escolher a melhor redação. Um dos teólogos desenrola o pergaminho e faz a leitura de seu trabalho. Mas, que coisa curiosa! Todos os outros estão rasgando os próprios pergaminhos!… Por quê fazem isso?

 Ah! É porque percebem tal pureza de doutrina e brilho de inteligência, que o melhor a fazer é destruir a própria redação.

 O texto conservado é de São Tomás de Aquino. E o primeiro a destruir o próprio trabalho é seu amigo São Boaventura, seguido por todos os outros. Que exemplo de humildade! Que bela homenagem ao gênio e às virtudes do autor da Suma Teológica! Homenagem esta que perdurará pelos séculos, pois a Igreja nunca deixará de usar em suas cerimônias os hinos e antífonas que ele criou.

 Mas, por quê uma festa anual, se em cada Missa diária Cristo se faz presente no altar? ― Alguns fatos levaram Urbano IV a concluir que era vontade de Deus a instituição de uma festividade em honra do Corpo de Cristo, todo ano:

  em alguns países europeus uma ou outra diocese já havia reservado um dia no ano para esta comemoração.

 ♣ em 1208 no mosteiro agostiniano de Mont Cornillon, na Bélgica, o próprio Nosso Senhor havia revelado à Irmã Juliana (falecida em 1258 e canonizada em 1599) que na Liturgia da Igreja faltava uma solenidade especial em louvor do Santíssimo Sacramento.

 Pe. Jacques Pantaleón foi informado pela vidente sobre esta revelação divina. Na área de influência do mosteiro, esta devoção foi colocada em prática. A vidente faleceu, mas o padre tornou-se bispo e depois papa.

  A gota d’água  

  e no verão de 1264, na cidade italiana de Bolsena, perto de Orvieto, durante uma Missa, o celebrante – duvidando da presença real de Cristo na Eucaristia – presenciou a Sagrada Hóstia derramar gotas de sangue sobre os tecidos do altar. Este milagre foi a gota d’água que estava faltando para a decisão papal.

 Em solene procissão, o tecido com o sangue de Jesus foi levado a Orvieto, onde estava o Chefe da Igreja. Ao encontrar-se com a divina relíquia, o Papa Urbano IV exclamou: “Corpus Christi!”

Procissões como esta se realizam em todo o mundo no dia de Corpus Christi

 Não faltava mais nada. Emitiu então um documento – chamado bula – determinando a solene celebração da festa em toda a Igreja, depois de acentuar a importância de se dedicar um dia no ano só para venerar plenamente o divino mistério.

 O dia ficou estabelecido: a quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade, ou 60 dias após o domingo de Páscoa.

 Devoção universal Daí em diante foi entrando em cena a criatividade das várias nações. Procissões solenes cheias de povo, tapetes artísticos cobrindo o leito das ruas, bandeiras multicoloridas.

 Sobretudo as cerimônias nas igrejas: Missas, bênçãos do Santíssimo Sacramento, adorações à Hóstia Consagrada. A beleza literária e a solidez teológica dos cânticos eucarísticos de São Tomás de Aquino completavam o quadro: Pange Lingua, Lauda Síon, Tantum Ergo Sacramentum, etc.

 Nestes 755 anos da instituição da Festa de Corpus Christi, digamos com São Tomás:

O Sacramento tão grande

veneremos curvados,

e a Antiga Lei

dê lugar ao Novo Rito.

A fé venha suprir

a fraqueza dos sentidos.

Ao Pai e ao Filho

saudemos com brados de alegria.

Louvando-os, honrando-os, dando-lhes

graças e bendizendo-os!

Ao Espírito que procede de ambos

demos os mesmos louvores!

Amém.

Em 2019 a comemoração de Corpus Christi será no dia 20 de junho. #

 

No século de São Tomás

O contexto, os contemporâneos, as obras

  NESTAS breves notas sobre São Tomás de Aquino, já estamos em 1248, ano em que ele é ordenado sacerdote. E o momento não poderia ser mais propício:

 O rei São Luís IX acaba de inaugurar a Capela Santa – joia do estilo gótico – para abrigar um espinho da coroa de Cristo no Calvário.

 A estrutura pétrea de um grandioso monumento do mesmo estilo já pode ser vista de toda Paris: é a catedral de Notre Dame.

 Mosteiros e conventos surgem por toda parte. Até a irmã do rei está fundando um em Longchamp, a oeste de Paris. Vai ser a abadessa. Hoje é Santa Isabel da França.

Universidade de Paris – Sorbonne

  Universidade, criação da Igreja Com a ajuda do rei, uma escola está sendo fundada (em 1253) pelo franciscano Frei Roberto Sorbon, para a qual empresta seu nome, doa seu patrimônio e escreve o regimento interno, que vigora séculos afora. Além de teólogo, ele é capelão da corte e confessor do rei. Trata-se da famosa Universidade de Paris, que começam a chamar de Sorbonne.

 Em breve, esta instituição filha da Igreja Católica e aprovada pelo Papa, terá 20.000 alunos! Eles afluem de vários países, pois está se tornando o mais importante centro de cultura e de estudos da Cristandade. E por falar em estudos, a língua latina garante a unidade neste conjunto bastante cosmopolita.

 Aí Tomás recebe o título de doutor, juntamente com Boaventura de Bagnoregio: teólogo, filósofo, doutor da Igreja, superior dos franciscanos, bispo, cardeal, santo (1219-1274).

 De aluno que era, passa a professor nesta universidade, mas só por 10 anos, porque dois Papas e os superiores requerem a presença dele em outros lugares.

Aliás, universidade é uma instituição inventada

e criada pela Igreja Católica. Esta de Paris é a segunda,

pois a ‘primogênita’ fica em Bolonha, na Itália.

  Almoçando com o rei Difícil é saber como Frei Tomás arranja tempo para escrever tanto. Só a lista de suas obras ocuparia algumas páginas. Pudera! Não é homem de perder tempo. Veja o que ele faz na presença do rei São Luís, durante um almoço.

 Antes é bom situarmos o contexto: tanto a Igreja como a coroa estão empenhadas em extirpar as heresias. Nosso teólogo é a peça chave para fornecer a boa lenha doutrinária a fim de alimentar a fogueira do amor de Deus.

 Como dizíamos, Frei Tomás, subitamente, bate na mesa e exclama: “Isto vai liquidar os maniqueus!” Alguns convivas estranham a atitude, mas o rei entende seu alcance: manda que copistas anotem o raciocínio do frade, para que não se perca uma palavra sequer. É mais uma importante munição para tão santa guerra! Pois, nestes tempos de cruzadas, até os teólogos combatem… com a caneta na mão. É preciso defender dos lobos o rebanho.

 E não faltam adversários, como Síger de Brabante, que tenta fazer aceitar pelos estudantes de Paris os erros de Averróis. Erros estes que, devido aos argumentos tomistas, acabam sendo condenados pelo Papa, salvando-se assim a boa filosofia.

  8.000.000 de palavras Suas inúmeras obras, portanto, são calcadas na realidade. Não é por acaso que um dos trabalhos do Doutor Angélico é “Suma contra os Gentios”.

 Da pena do autor da “Suma Teológica” vão saindo também: “O Ente e a Essência”, “Sermão sobre o Credo”, “Compêndio de Teologia”, “Sermões sobre o Pai Nosso e a Oração Angelical” e muito mais. São 118 obras, totalizando quase oito milhões de palavras!

 Entretanto, em 1274, na viagem para Lyon a fim de participar do Concílio, a morte o surpreende, tendo 49 anos.

 Apesar de sua pouca idade, pode-se dizer com São Paulo que ele combateu o bom combate e mereceu o prêmio da glória. O Papa João XXII o canonizou em 1323 e o Papa São Pio V, em 1567, declarou-o Doutor da Igreja, sob o título de Angélico. #