Nababo, sofrimento e glória

Caprichos de nababo fazem lembrar equilíbrio

entre felicidade e sofrimento

  NA noite dos tempos, lá no longínquo Oriente, um nababo muito rico – perdoe-nos o pleonasmo… – e egoísta, empregava boa parte de suas fortunas para evitar o sofrimento.

 Construído em bonita região, seu palácio foi calculado, da localização ao layout, tendo essa ideia como fundo de quadro. Montes abatidos, vales nivelados – até parece que aplicava em proveito próprio a mensagem do Batista (cf Lucas 3, 4-6) –, para que a estrada, com curvas suaves, não apresentasse nenhum incômodo.

 Sua carruagem estacionava bem junto ao palácio, onde tinha um carrinho confortável, que dava acesso às portas de todas as dependências. Nem é preciso dizer que estas se situavam todas no plano terra-terra, símbolo da mentalidade do personagem.

 Sobre as iguarias de sua mesa nem falemos, pois o requinte dessa mentalidade se concentrava em seu leito, preparado com os mais delicados materiais , inclusive camadas de pétalas de rosas, dispostas cuidadosamente.

 Mesmo assim, em certo dia, nosso nababo amanheceu queixoso de dores. Por quê? Depois de muito procurar, descobriu-se a causa: havia uma pétala dobrada…

  Oitavo sacramento? Esta historinha ilustra bem o Evangelho de São Mateus 13, 31-35. Com efeito, alguém com a mentalidade pintada acima, alcançaria ser feliz nesta Terra? E na eternidade?

“É no sofrimento que se encontra a porta da autêntica felicidade, e no amor ao próximo o sinal característico do cristão. (…) Querer programar uma vida sem sofrimento é algo impossível, pois não há ninguém livre de contrariedades”, afirma Mons. João Scognamiglio Clá Dias (O inédito sobre os Evangelhos – volume V – São Paulo: Lumen Sapientiae, 2012 , p. 325).

Santos no Céu
Santos no Céu: felicidade eterna

 O fundador dos Arautos do Evangelho, citando autores conceituados, explana sobre a necessidade – para equilibrar nossa natureza desordenada – da aceitação da dor e do exercício do sofrimento, o que poderia ser um “oitavo sacramento” (Idem, cf. p. 326). E acrescenta:

“Deus, que nos criou ávidos de encontrar a felicidade, também colocou em nossa alma a capacidade de sofrer” (Idem, p. 327). Diante da dor não se deve perder o ânimo. “Pelo contrário, quando a cruz se apresentar, cabe-nos imitar Nosso Senhor Jesus Cristo: ajoelharmo-nos, oscular o instrumento de nossa amargura e pô-lo aos ombros com determinação, certos de que assim se inicia o caminho da nossa glória” (Idem, p. 331).

 Afirma ainda Mons. João que nem sequer vamos nos lembrar das dificuldades que tivemos neste mundo, pois o estado de prova terá passado como num piscar de olhos. Restará apenas a bem-aventurança (cf idem, p. 337).

 Eis aí algumas pontas de trilho que podem sinalizar boa viagem à locomotiva de nossa fé, para não termos surpresas desagradáveis na chegada à estação terminal. #

Família Paciência

Menino ferido fica impaciente e colega transmite doutrina católica sobre sofrimento

Dois colegas – Pacífico e Isaltino – estão voltando para casa, a pé. Traz cada qual uma sacola vermelha com amostras variadas da vegetação regional, para apresentar à professora de botânica. Estão alegres porque vai valer para nota, sem necessidade de estudar.

Cuidado! Vem lá um touro bravo!

Atravessam agora um grande bosque, mas percebem que a escuridão está vindo ao encontro deles.

Mas se fosse só a escuridão…

– Tino, vem lá um touro bravo! – exclama Pacífico.

Mal deu tempo de subirem numa árvore. Pequena, por sinal.

Se dependesse de Pacífico, os dois ficariam bem quietos, para que o animal não se exaltasse e procurasse agredi-los. Já ligou pedindo socorro, agora é só esperar com paciência. E sobretudo rezar.

Mas, quem disse que Isaltino procederia assim? Apesar dos apelos do colega, tanto se exalta – inclusive provocando o boi com a sacola vermelha –, que este começa a sacudir a árvore. Mas nosso valentinho não desiste, julgando com isso afastar o animal.

Pacífico avisa o colega que está chegando o veículo que veio lhes socorrer, mas este nem consegue ouvir, pois, já esborrachado no chão, começa a receber violentas chifradas.

Ainda bem que chega a viatura, e o boi é expulso. Mas Isaltino não consegue se mover, devido aos ferimentos. É levado para o hospital, onde fica por dois dias.

Em casa, uma das visitas é do colega, que comenta:

– Se você tivesse tido um pouco de paciência…

– Ih! Vem você também falar esta palavra… Basta o que já ouvi de sua avó, de seu pai, de sua tia… Eu até já arranjei apelidos para eles: “Família Paciência”, “Dona Resignação”, “Sr. Juízo”, “Srta. Calma” etc. Para você não precisa mudar nada: é Pacífico mesmo.

– Mas eles não têm razão?

– Pode ser que tenham, mas eu nunca consigo ficar calmo. Agora vem estas dores, estes curativos; eu não vejo a hora de arrancá-los todos. Insuportável!

As feridas da alma

– Deixa disso, Tino. Olha que interessante o que aprendemos hoje na aula de crisma. É pena que você não pôde estar presente.

“Não sejamos tão impacientes no sofrimento. A impaciência duplica-nos a dor. O ferido necessita de repouso. Quanto mais ele se agita, arranha, coça e mexe as feridas, tanto pior. Sofre mais e até se arrisca a uma infecção, que pode ser fatal.

“Dá-se o mesmo com as feridas da alma, as feridas do coração! Quando elas aparecem, devemos ir logo ao Médico Divino, e Ele, tão misericordioso, há de pensá-las carinhosamente, derramando sobre as mesmas o bálsamo suavíssimo do seu Amor: Vinde a Mim, Eu vos aliviarei” (cf O Breviário da Confiança – Mons. Ascânio Brandão).

– Éh! Pacífico, pensando bem, minha alma está precisando muito desse bálsamo…

– Medite neste salmo, Isaltino, e depois reze uma Ave Maria. A Mãe de Misericórdia consegue solucionar nossos problemas.

“Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos” (Salmo 40, 1-2).

A arte de sofrer bem

O apelido que Isaltino deu à família de Pacífico, pode, com muita propriedade, ser aplicado ao campo das virtudes sobrenaturais. Podemos considerar como pertencentes a essa Família, além da Paciência, a Calma, o Equilíbrio, a Resignação, a Serenidade, a Tranquilidade, a Conformidade etc.

Tanto mais que paciência deriva do latim, pati = padecer. Por isso, essa virtude é a capacidade de padecer dignamente, a arte de sofrer bem. Quando ajudada pela graça divina, a paciência cristã é a virtude que nos dá ânimo para sofrer e suportar as contrariedades e a dor, com fé, esperança e amor. Especialmente quando se prolongam (cf  A Paciência – Pe. Francisco Faus).

E assim, na vida de todos os dias, podemos ir acumulando créditos para a bem-aventurança eterna.