A linguagem das flores quaresmais

Entre em sintonia com a natureza e a liturgia,

nesse tempo penitencial

  DEUS criou tudo com sabedoria. Assim, Ele quis que na própria natureza houvesse símbolos que nos lembrassem os sofrimentos redentores de Cristo.

 Um deles é a flor da deliciosa fruta maracujá ― trepadeira bem brasileira ―, da qual todos conhecem as propriedades calmantes. Mas uma coisa nem todos sabem: é chamada também de flor-da-paixão, porque, além da cor roxa, nela pode-se divisar alguns instrumentos da crucifixão de Cristo: coroa de espinhos, coluna da flagelação, açoites, 3 cravos, chagas etc.

Flor-da-paixão, passiflora, flor de maracujá

 O Papa e a flor Esse pormenor é tão relevante que deu origem ao nome do seu gênero botânico: passiflora. Em latim, passio significa paixão.

 Até o Papa Paulo V (1605-1621) ficou maravilhado com as flores de maracujá recebidas de missionários jesuítas, e mandou que esse vegetal fosse plantado em Roma com especial carinho. Para o pontífice essa flor tão simbólica da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo seria um incentivo a mais para se pregar o Evangelho no Novo Mundo (cf UFRGS). Mas se fosse necessário mais algum incentivo de nossa flora para se pregar aqui o Evangelho, isso não teria faltado.

 Quaresmeira Encontrada principalmente nos Estados da Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, uma árvore de 8 a 12 metros foi batizada de quaresmeira por consenso popular, pois a cor roxa das flores também lembra a Paixão de Cristo. E elas desabrocham durante a Quaresma, período preparatório da maior festa da Cristandade, a Páscoa.

Quaresmeira

 É a natureza lembrando-nos de sintonizar com os sofrimentos de Jesus, principalmente na Semana Santa. O manacá e o ipê-roxo também nos convidam a isso. Consideremos a aceitação de tão oportunos convites…

 A liturgia também Aliás, como não poderia deixar de ser, sobretudo a liturgia católica procura nos colocar nesse estado de espírito durante a Quaresma, cobrindo cruzes e imagens com a cor que simboliza o sangue de Cristo derramado para nossa salvação. Este procedimento facultativo é chamado de velatio. É ao mesmo tempo um sinal de luto e de penitência.

 Divina esperteza ― Especificamente, a cruz coberta com tecido simboliza a sagacidade e o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo, ocultando-Se para que os judeus não O apedrejassem ou prendessem, conforme São João 10, 31-32 (Os judeus pegaram pela segunda vez em pedras para O apedrejar. Disse-lhes Jesus: ‘Tenho vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual dessas obras Me apedrejais?’) e 39 (Procuraram então prendê-Lo, mas Ele Se esquivou das suas mãos).

Velatio das imagens

“Quaresma é tempo de oração, cuja essência, ensina o Catecismo, é a ‘elevação da mente a Deus’. Assim, é possível a qualquer um permanecer em oração inclusive durante os atos comuns da vida, realizando-os com o espírito voltado para o Céu” (Mons. João Scognamiglio Clá Dias).

Quaresma, portal da Páscoa

Por que Nosso Senhor foi tentado

pelo demônio?

  Nos primeiros séculos do Cristianismo a preparação para a Páscoa constava de jejum nos três dias anteriores à festa. A partir do século quarto é que esse tempo preparatório foi estendido para quarenta dias, de Quarta-Feira de Cinzas (após o Carnaval) à Quinta-Feira Santa, e passou a ser chamado de quaresma, originário do latim quadraginta = quarenta. Quaresma dá origem a quaresmeira.

 O principal fundamento bíblico dessa vigília penitencial não poderia ser outro senão o retiro de Jesus no deserto, durante quarenta dias, onde foi tentado pelo demônio (Lucas 4, 1-13), em todo esse período. Episódio este que foi antecedido pelo Batismo de Jesus no rio Jordão, feito por São João Batista.

 Nessa perspectiva simbólica, outras passagens da Sagrada Escritura reforçam o acerto da quarentena de dias antes da Páscoa: os 40 anos da peregrinação do povo eleito rumo à terra prometida; os 40 dias em que Moisés jejuou no Monte Sinai; os 40 dias da caminhada de Elias até o Monte Horeb, etc.

O Homem Deus vencendo
o pai da mentira!

Por qual motivo Cristo permitiu que satanás O tentasse? – Responde-nos Mons. João Scognamiglio Clá Dias: segundo alguns Padres da Igreja, Nosso Senhor quis ser exemplo para nós, indicando o modo de vencer as tentações diabólicas. Assim como na Cruz venceu a nossa morte, no deserto triunfou sobre as tentações que nos assaltam.

 E as investidas do demônio visam de modo especial as pessoas adiantadas na virtude. Pois, conseguindo vencê-las, sua vitória é mais retumbante.

 Por outro lado, Jesus, submetendo-Se a essas tentações, ensina-nos a termos confiança na misericórdia dEle, que ― segundo São Paulo em Hebreus 4, 15 ―, “passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado” (cf O inédito sobre os Evangelhos – vol. V – p. 179-180). #