Navio-catedral para a Amazônia

 

A selva amazônica talvez seja o lugar onde mais se evidencia 

a existência de Deus, e mais se precisa dEle.

(Renato Ignácio da Silva – Amazônia, paraíso e inferno! – p. 63)

SEGUNDA metade do século 19. Diocese imensa. Numerosa população indígena à espera da Boa Nova de Jesus. Não há missionários suficientes para catequizar tanta gente. Alto-falante, rádio, TV engatinham ainda nos laboratórios dos inventores. Como chegar às aldeias? Faltam estradas e sobram rios.

Mas ele recebeu de Cristo a missão de “pregar o Evangelho a toda criatura”, portanto aos silvícolas também. Afinal, foi-se o tempo em que se duvidava de que eles tivessem alma… (cf Sublimis Deus, bula papal de 1537). E aquela admoestação de São Paulo: ‘Ái de mim se não evangelizar!’ (I Cor 9, 16), ele a tem sempre presente.

Não desanima. Reza. Pensa em algo novo. Medita sobre os variados recursos que o Senhor da messe usou: pregando para as multidões no alto dos montes, ensinando no Templo, nas praças, nas ruas. Até sobre as águas o Mestre discursava ao povo!

Jesus na barca

Em sua meditação-prece-visão, o eclesiástico contempla o Filho de David sobre uma barca, dizendo palavras de vida eterna para as multidões acotoveladas nas margens do Mar da Galileia.

Que interessante! Ele gostava de falar ao povo a partir das águas! Isso não contém uma mensagem para nós, da maior bacia fluvial do mundo? Afinal, não são de água nossas estradas?

Sonhando realidades Em seguida, como num filme, a cena vai mudando suavemente. A pequena embarcação toma ares de grande navio. Mastros se transmudam em torres, velas em vitrais. E ele entrevê, ao longe, uma igreja-navio flutuando ali no seu Amazonas. Vem se aproximando, e é belíssima! Uma catedral em festa! Toda embandeirada, órgão tocando, sinos bimbalhando. Cheia de gente. Em seu interior, grandiosa cerimônia em honra do Santíssimo Sacramento!

“Ah, eis aí a solução!”

E foi assim ─ imaginamos nós ─ que terá surgido a ideia concreta e pioneira de Dom Antônio de Macedo Costa, Bispo do Grão-Pará (1860-1890), exposta em grande estilo na Assembleia Provincial do Amazonas, em 1883.

Mas, qual ideia?

Nada melhor do que o testemunho do escritor e jornalista ─ tão famoso quanto insuspeito ─ Euclides da Cunha (1866-1906). Veja como o autor de “Os Sertões” faz a narrativa (não completa, infelizmente) do fato:

“Regatão SagradoHá uns vinte anos, o bispo do Pará, D. Antônio de Macedo Costa, comovido diante da decadência dos costumes amazônicos, planeou construir o Cristóforo ─ navio-igreja ou vasta basílica fluvial com os seus campanários, os seus púlpitos, os seus batistérios, os seus altares e o seu convés afeiçoado em nave ─ flutuando perpetuamente sobre as grandes águas, indo e vindo em constantes giros, dos mais populosos rios aos paranás mais desfrequentados, por maneira que, das cidades ribeirinhas aos vilarejos mais tolhiços e sem nome, onde ele ancorasse nas escalas transitórias, se difundissem os influxos alentadores da fé, e descessem sobre as gentes simples, relegados da cultura humana o consolo, a surpresa magnífica e o encanto das repentinas visitas do bom Deus em viagem.

 Euclides da Cunha

“A ideia não se efetuou; e foi pena. Ela denunciava (…) um lúcido conhecimento dos homens, e tato sutilíssimo de verdadeiro apóstolo sabedor do império surpreendente dos símbolos e das imagens.

“Imagine-se a cena: um arraial longínquo, adormecendo ao cerrar da noite, entristecedoramente, na quietude daquelas solidões monótonas; e despertando na antemanhã seguinte com uma catedral ao lado, feito a metrópole de um dia da civilização errante. No alto da barranca, despertas pelos sinos, as gentes surpreendidas, em massa, vistas pasmadas, já não reconhecem o próprio chão onde nasceram e assistem. Um milagre tangível (…)”. [interrompido] (CUNHA, Euclides da – Ensaios e inéditos. São Paulo: Ed. UNESP, 2018, p. 91-93).

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Cristóforo X regatões Na Amazônia do século 19, surge a figura do mascate fluvial. Ele faz o intercâmbio de mercadorias e matérias primas entre as cidades e as aldeias. Pratica o escambo, e também vende missangas, quinquilharias, bugigangas. Mestre em regatear preços, é chamado de regatão. Prosperando, fica dono de um barco, que recebe o mesmo nome.

E assim os regatões se multiplicam, tornando-se armazéns flutuantes nas abundantes ‘estradas’ aquáticas da região. Vão carregados de fabricos criados pelo homem, e voltam abarrotados com os “sete frutos da Terra Prometida” (Deuteronômio 8, 6-10), saídos das mãos de Deus.

Por outro lado, autoridades locais da época apontam como corruptores dos indígenas, alguns regatões que penetram por todas as partes, difundindo falsas ideias e maus conselhos entre os índios, a fim de conservarem o monopólio do comércio.

Sonho vira projeto Teria sido para se contrapor à ação desses regatões, que D. Macedo Costa concebeu a ideia do Cristóforo, destinado a levar a religião aos índios e aos demais habitantes que margeavam as hidrovias amazônicas.

O pioneiro e ousado planejamento de catequese indígena do Bispo do Pará era bem específico. Consistia na construção de um navio-igreja ─ com as características apontadas acima por Euclides da Cunha ─ medindo 40 x 10 metros, denominado “Cristóforo”, que significa portador de Cristo (cf Estradas líquidas, comércio sólido: índios e regatões na Amazônia – www.scielo.br).

Sínodo ─ “Chamou-me a atenção o interessante texto Regatão Sagrado (…). Será que o Sínodo sobre a Amazônia pretende resgatar a ideia de dom Macedo Costa e implantar um navio-igreja, feito o Cristóforo, de que tratou Euclides da Cunha?” (Pedro Lucas Lindoso, julho 2019).