O alazão e o Pai-Nosso

Pierre se distrai e deixa de ganhar um cavalo.

É possível rezar sem distração?

Lá no longínquo século décimo, um santo e respeitado monge, com hábito branco, preferindo a montaria à carruagem, viaja em seu possante cavalo alazão, no interior da França.

De mansinho, emparelha-se com ele um camponês, Pierre, encarapitado no seu pangaré. Pede-lhe a bênção, e entabulam animada prosa. Sai de tudo. A colheita, as estripulias do caçulinha, as devoções.

Nesse ponto, o religioso se queixa de que, por causa das preocupações com os assuntos da abadia, às vezes não consegue rezar com a atenção devida. Veja só a reação do nosso camponês:

─ Como é, Senhor Abade? Então o senhor se distrai quando reza? Palavra de honra, julgava que fosse santo! Eu nunca me distraio nas orações, mesmo que alguém passe a tilintar moedas de ouro a meu lado ou a tocar trombetas!

Desafio – Ele sorri, com uma ponta de desconfiança, questionando se é possível alguém rezar sem distrações. Ante a reafirmação do lavrador, o monge propõe um desafio:

“O senhor me dá também o arreio?”

─ Pierre, se você rezar agora um Pai-Nosso sem se distrair, dou-lhe este cavalo em que estou montado!

Surpreso, o homem faz festinhas na cabeça do animal, e exclama:

─ Cavalo forte e elegante, você já é meu!

O camponês acrescenta que, para o Sr. Abade não ficar a pé, ele lhe dará o seu pangaré. Hoje, seria o mesmo que trocar uma moto BMW 1600 por uma Honda Pop.

E tem início a prova. Pierre inclina a cabeça, põe o rosto entre as mãos, e reza baixinho, pausadamente: “Pai-Nosso, que estais nos Céus…” Quando chega no “O pão nosso de cada dia…”, faz uma pausa, levanta a cabeça e pergunta:

─ Diga-me, padre Abade, o senhor me dá também o arreio?

─ Meu filho, que pena! Nem arreio, nem cavalo, nem nada, porque você já se distraiu!

Lançando um olhar saudoso para o animal, Pierre suspira:

─ Ái, que rico cavalinho eu perdi agora! Sem querer, eu fiz uma loucura. A culpa é da minha imaginação.

 O viajante não é outro senão o grande São Bernardo de Claraval, um dos maiores santos da Igreja, fundador da Ordem de Cister, conselheiro de Papas e de reis, promotor da segunda Cruzada, pregador e poeta.

E a solução? – Há duas espécies de distrações durante nossos atos de piedade: as exteriores, que são, por exemplo, olhar para o lado, prestar atenção nas

Reserve para Deus seu melhor tempo

pessoas que entram e saem, ler alguma coisa, fazer comentários etc. Tais distrações podemos e devemos evitar.

Porém, distrações interiores ou mentais, ninguém consegue livrar-se delas. Santa Teresa de Ávila dizia que “a imaginação é a louca da casa”, que fica sempre vagueando em nossa cabeça, como um filme do que se passa no dia, ou as cenas que o demônio quer fazer girar em nosso interior (Cf. Distrações na oração. Jornal “A Presença” n. 241 – set 2004 – Igreja de São Mamede – Lisboa).

Tais distrações, embora inevitáveis ─ pois boa parte é causada por cansaço, fatores psicológicos etc ─, podem ser amenizadas mediante certos cuidados, por exemplo, fazendo os exercícios de piedade na melhor hora do dia. Em todo caso, nunca devemos dar às distrações nosso consentimento.

Nunca deixe de fazer as orações costumeiras. Procure não dar trelas à “louca da casa”.