Meditando acima das nuvens

“Eu estive no céu e não vi Deus lá” (Frase atribuída a um astronauta)

MÊS DAS FLORES, 4 horas da tarde desta quarta-feira, no aeroporto da próspera, acolhedora e simpática Belém do Pará. Os passageiros, poucos, já tomamos nossos assentos. A máquina voadora se põe em movimento. Rezo ao meu Anjo da Guarda e aos Santos de minha devoção, pedindo proteção celeste. Destino: direto para a capital bandeirante. Céu claro. Nuvens esparsas.

Ao transpor as nuvens, estas apresentam a meus olhos um belo espetáculo de formas: enormes tufos como que de algodão, lembrando montes, castelos, torres. São ‘construções’ alvas, de variados tamanhos e formatos, que a vista não consegue abarcá-las todas, pois se perdem no horizonte. Mas meu espírito sai ganhando, ao se elevar à contemplação, conforme uma das súplicas da Ladainha de Todos os Santos: Que eleveis nossos corações a desejar as coisas celestes, nós vos rogamos: ouvi-nos.

Da janela do avião

Aliás, quão sábia é a Igreja Católica, ensinando-nos a pedir a Deus essa postura de alma! Pois, não sendo favorecido pelo inestimável dom da Fé, alguém pode até percorrer o cosmo a bordo de um foguete e afirmar não ter visto Deus lá…

As palavras voam, segundo o provérbio latino. O que dizer dos pensamentos? Abri meu lap top e comecei a registrá-los antes que…

*   *   *

 Os espetáculos coreográficos que as nuvens – em parceria com o sol e o vento – nos proporcionam lá na Terra, todos conhecemos. Basta atentar para alguns fabulosos nasceres e pores do sol e certas tempestades com trovoadas. São fenômenos com os quais o ser humano está acostumado no dia a dia.

Outra coisa é o que se pode ver acima das nuvens, em que a vastidão dos espaços nos remete irresistivelmente para o infinito, para a eternidade.

Daqui de cima pode-se confirmar o que estamos acostumados a observar em terra: “voam as nuvens como pássaros” (Eclo 43, 15).

À semelhança de certas aves, elas vão juntas numa só direção, todas sôfregas por executar as ordens do Criador (Cfr. Jó 37, 12): desde brisas refrescantes em dia de sol, até trovejantes tempestades de verão.

E uma das mais interessantes ordens que o Criador deu às nuvens é a de serem vestimenta para a Terra, segundo o Livro de Jó 38, 9.

 Se não houvesse nuvens, como a Terra ficaria sem graça… Sem esse manto protetor, teríamos o sol a pino durante o dia inteiro, todos os dias. E ficaríamos privados dos feéricos cerimoniais do nascer e do por do sol e dos variados espetáculos cromáticos. O hemisfério norte ficaria privado de suas estupendas auroras boreais.

Sobretudo, não poderíamos ler nas Sagradas Escrituras estas expressões tão próprias a ressaltar a grandeza divina:

Deus “cavalga os céus e as nuvens majestosamente” (Dt 33, 27).

As nuvens são a poeira de Seus pés (Cfr. Naum 1, 3).

“Vós estendestes o céu qual pavilhão; acima das águas fixastes vossa morada. De nuvens fazeis vosso carro, andais nas asas do vento; fazeis dos ventos vossos mensageiros, e dos flamejantes relâmpagos vossos ministros” (Salmo 103, 2 e 3).

E São Paulo não teria expressado desse modo o esperançoso discurso segundo o qual nós, os vivos, seremos arrebatados sobre nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com Ele (Cfr. 1. Tess 4, 17).

*   *   *

O final do dia, aqui nas alturas, é um espetáculo à parte: a luz solar, por não encontrar nenhum obstáculo, parece demorar muito mais a desaparecer. Aquela vastidão vai se colorindo lentamente, e se configura no horizonte uma grande esfera de fogo. É o rei sol.

A pequenez e o nada do homem ficam patentes, gerando até certa perplexidade. Tal é a amplidão e a majestade que se nota a partir deste observatório voador, que faz a gente quase apalpar a veracidade da frase de São Lucas, quando afirma que nós existimos e nos movemos dentro de Deus (cf Atos, 17, 28).

Sol e nuvens, beleza à vista

A 10.000 metros de altura, tem-se a sensação de estar numa região sem proporção humana, bem própria para Anjos. Como não se sentir, aqui, mais perto do Criador?

A noite vem chegando. Lá em baixo podem-se divisar as luzes desta ou daquela cidade. Então, à minha alma aflora outro pensamento: lá estão inúmeras igrejas em cujos sacrários Jesus Se encontra realmente presente. Em várias delas está-se renovando agora o Santo Sacrifício do Altar. E eu – simples criatura que gostaria de estar ajoelhado diante de meu Salvador – estou, nesta barulhenta máquina, voando acima dEle…

 Sete e meia da noite. A aeronave começa a perder altitude para aterrissar, e os avisos de segurança abortam a meditação.

*   *   *

Apresso em salvar as últimas palavras e correções, e digito essa singela prece:

Senhor, agradeço-Vos a ótima viagem e principalmente a graça da Fé pela qual posso contemplar-Vos através de Vossas criaturas. Peço-Vos ‘absolver-me’ por ter ousado penetrar na região reservada aos Anjos, e sobretudo ‘perdoar-me’ por estar voando acima de Vossas hóstias consagradas!

Aceitai, Senhor Jesus, destas alturas, minha reverente adoração. Dai-me a imerecida graça de viver sempre pronto para o momento em que me chamardes. E depois de ‘arrebatado sobre nuvens’, entrar na eterna bem-aventurança. Eu Vos peço por intercessão de Vossa Mãe Santíssima, que o é também minha. Amém.