Carpideiras: da tristeza à alegria

Durante o velório, a ressurreição!

SURPRESA, confusão, espanto seriam seus sentimentos se você ouvisse essa conversa de Judite e Sara, vizinhas e amigas. Pois elas estão listando as pessoas idosas da cidade, e arriscam palpites de datas em que poderão morrer.

Por quê? Não pense o pior, nem chame a polícia. Elas, tão somente, estão fazendo uma agenda de trabalho. Sim. O serviço delas consiste em chorar durante os velórios. Isto mesmo. São as carpideiras de Cafarnaum. Faz tempo que não falece ninguém importante nessa cidade, e suas economias estão se esgotando.

Mas, por esta elas não esperavam: Raquel, colega de ofício, veio avisar que acaba de falecer uma viçosa menina de 12 anos, filha de importante chefe. Lamentam a perda, mas dão graças a Deus pelo cliente, que é homem rico e generoso. No velório de sua avó, as carpideiras ganharam um bom cachê.

Sem perder tempo, avisam as outras choradeiras profissionais, fazem os preparativos pertinentes, e se dirigem à casa de Jairo, chefe da sinagoga e pai da defunta. Elas não notaram que o dono da casa tinha se ausentado, antes que chegasse a morte com sua foice. Portanto, nem suspeitaram o que estava prestes a acontecer.

Liderado por Judite, o conjunto se esmera nas lamentações e choros… por encomenda. Não faltam flautistas tocando músicas fúnebres, um costume pagão assumido pelos judeus daquele tempo. Judite é a carpideira-mor. Ela representa tão vivamente seu papel, que alguns pensam ser ela a mãe da falecida.

Menina, eu te ordeno, levanta-te!

Entretanto, no auge da barulheira fúnebre oriental, chega, acompanhando Jairo, um personagem muito respeitável ─ quem será? parece um profeta! ─, que ordena silêncio e a evacuação da casa, e diz que a menina não está morta, mas dormindo.

Nem é preciso dizer que isso causou um enorme reboliço, com direito a caçoadas, pois todos sabiam que ela não tinha mais vida.

O personagem se dirige, com os pais e mais três pessoas, ao quarto onde está o cadáver. Pegando na fria mãozinha, diz: “Talitha, cumi!” ─ que significa “menina, eu te ordeno, levanta-te” ─ e entrega, mais viva do que nunca, a criança à mãe. Esta quase morre de alegria.

Em instantes um contentamento celestial toma conta de todo mundo, inclusive da turma do choro, que ‘muda a partitura’ e o visual, passando a executar músicas apropriadas à nova circunstância.

Afinal, agora é preciso comemorar a primeira ressurreição operada pelo filho do carpinteiro José, da vizinha cidade de Nazaré. Já sabiam que ele tinha feito alguns prodígios: expulsão dos vendilhões do Templo, pesca milagrosa ali no Lago da Galileia e várias curas, inclusive da sogra de Pedro. Mas, restituir a vida a um cadáver, quem poderia imaginar?

Ao pedido que Jesus faz de não espalharem a notícia, ninguém consegue atender, e em pouco tempo a cidade toda, e depois o mundo inteiro, ficam sabendo. Graças a Deus! (Obra consultada: Concordância dos Santos Evangelhos, de D. Duarte Leopoldo e Silva, São Paulo, LTR, 7ª ed., 1988, p. 84-87).

As ressurreições e as curas milagrosas escapam à rotina, e tendem a aumentar na alma a virtude da Fé. Com efeito, quem ─ diante de uma cena dessas ─ consegue ficar indiferente? †