As águas e a Bíblia

O elemento aquático na História Sagrada

ESCRITA pelos dedos de Deus, a História da Salvação é repleta de contrastes e maravilhas. Nisso, a criatura água está presente, de vários modos, a começar pelo primeiro capítulo do Gênesis.

Depois de Noé, sua arca e o dilúvio, vemos Moisés, salvo das águas do Nilo, sendo escolhido por Deus para tirar seu povo da escravidão. Depois das sete pragas, a espetacular saída do Egito, em que as águas do Mar Vermelho se abrem para os perseguidos passarem, e se fecham sobre os perseguidores.

No deserto, o maná de todos os sabores, a serpente de bronze que cura, as cristalinas águas jorrando das pedras.

Após 40 anos, o povo eleito chega à terra prometida. A travessia do Rio Jordão é outro episódio relacionado com o elemento aquático.

Passam-se os séculos e as gerações. Nasce o Salvador, que fixa residência numa região de abundantes águas. É batizado no rio e atrai discípulos entre os pescadores. Acalma tempestades, multiplica peixes, realiza pescas milagrosas.

O cenário não poderia ser outro senão um grande lago ou pequeno mar, situado ao norte da Palestina. Pequeno? Nenhum outro tem a honra e a glória de ver Cristo (e Pedro…) caminhando sobre suas águas!

...fez discípulos entre os pescadores
Jesus andou sobre estas águas…

Três nomes e muitas glóriasO Mar da Galileia, de fato é um lago de água doce, medindo 13 por 21 km, a 213 m abaixo do nível de seu vizinho, o Mediterrâneo. Este sim, um autêntico mar, que, entretanto, se pudesse sentir, teria santa inveja de seu vizinho menor, palco de tantos episódios bíblicos!

Distante 110 km de Jerusalém, chamam-no também de Lago de Genesaré.

Tendo Cristo uns 18 anos, foi inaugurada às suas margens a nova capital da Galileia, chamada Tiberíades, em homenagem ao imperador romano Tibério César. Então, suas águas foram rebatizadas com o nome de Lago de Tiberíades… Mas essa mudança não agradou à população, que continuou usando o secular nome de Mar da Galileia.

Para beneficiar os habitantes, atua ’em parceria’ com o Rio Jordão, do qual recebe toda a água, pelo norte, e depois de distribuir do precioso líquido para cidades e campos, ainda o devolve ao mesmo rio, pelo sul. Não guarda nada para si. Nem água, nem peixes.

Cristo e as águas Levando em conta esses antecedentes, não espanta que tão generosas águas tenham sido escolhidas pelo Divino Mestre para fatos tão grandiosos!

Pois foi de seus peixes que Ele se serviu para multiplicar, alimentando assim milhares de pessoas.

Alimentou também a fé de muitos, pela palavra e pelo exemplo: caminhou sobre suas águas, para fortificar a fé de Pedro. Só de Pedro? Quando a barca esteve a pique de naufragar durante uma tempestade, ordenou a esta que se acalmasse. E foi prontamente obedecido.

E assim, o Divino Pescador pescou alguns pescadores do lago, que se tornaram pescadores de almas: Pedro e André, Tiago e João, Tomé e Natanael. Ou seja, 50%de seus Apóstolos.

Quantas vezes Cristo subiu numa barca e se afastou da praia para melhor se fazer ouvir e ser visto pelas multidões. E de seus lábios sagrados saíam perenes ensinamentos.

Quem estivesse nas imediações do lago, por ocasião do Sermão da Montanha, poderia ter presenciado Jesus falar ao povo sobre as bem-aventuranças, lá no alto da colina:

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos…”

Esse sermão é considerado um resumo do Cristianismo, o texto da Nova Lei. Sobre ele comenta um ex-arcebispo de São Paulo:

O Deus feito homem a promulga sobre uma montanha verdejante, cercado dos seus discípulos e de grande multidão de povo.

A palavra de Deus escapa-lhe dos lábios fluente e acessível ainda aos mais ignorantes.

Ela diz toda a verdade que os homens devem saber, ensina tudo o que é preciso fazer para a salvação, anima, fortifica, dirige e eleva.

(…) é o mais belo e mais tocante ensinamento que tenham ouvido os homens”.

(D. Duarte Leopoldo e Silva. Concordância dos Santos Evangelhos. S. Paulo: LTR, 1998, 7ª ed., p. 99).

Com estudos na teologia bíblica, o tema água ─ que é citado quase 400 vezes nas Sagradas Escrituras ─ pode ter mais desdobramentos. Por exemplo, o uso universal desse precioso líquido no batismo. Havendo oportunidade, voltaremos ao assunto.