O ‘brasileiro’ Santo Antônio

Reflexos populares da devoção

antoniana

  SANTO ANTÔNIO de Lisboa? Santo Antônio de Pádua? Essa é uma contenda ─ velha de quase oito séculos ─ entre italianos e portugueses. Nós, brasileiros, o chamamos apenas de Santo Antônio, e com que devoção! Afinal, ele imitou o Sol, que nasce de um lado do mundo e sepulta-se no outro… Para o Papa Leão XIII, ele é o santo de todo o mundo (Cf. Ataliba Nogueira. Santo Antonio na Tradição Brasileira. São Paulo: Ed. Rev. Tribunais, 1933, p. 9-10).

 De fato, pode-se encontrar devotos seus nas mais variadas raças. É uma devoção universal.

  Dois gritos – Se, segundo os franceses, a vida está entre dois gritos: “entra-se, grita-se, é a vida; grita-se, sai-se, é a morte!” (“On entre, on crie, c’est la vie; on crie, on sort, c’est la mort!”), os lisboetas ouviram o seu primeiro vagido, e o viram entrar para a vida no ano 1195; os paduanos escutaram seu último gemido e o viram sair desta vida, 36 anos depois.

 Nós não presenciamos nem uma coisa nem outra, mas através de incontáveis graças e milagres, somos favorecidos com sua constante proteção.

 Com efeito, seus irmãos de hábito, os frades franciscanos, perfumaram o Brasil, de norte a sul, com as “fioretti” antonianas.

 Quem não ouviu falar do sermão aos peixes?

 De como ele impediu um operário de cair da construção?

 Da mula que se ajoelhou diante do Santíssimo Sacramento?

S. Antônio
Frei Antônio recebeu de Maria o Menino Jesus

E o privilégio de carregar o Menino Jesus nos braços?

 O povo que diz: “Deus é brasileiro”, não ia deixar de retribuir a esse grande amigo de Deus nascido português, todo o carinho e a devoção herdados da mãe pátria, como se cá tivesse vindo à luz.

  Tenente-Coronel – Sem entrar em polêmica com os Camões nem com os Alighieri, simplesmente tomamos posse da devoção antoniana, que foi penetrando em todas as capilaridades da Nação. A tal ponto que nas várias refregas em defesa da Religião e da Pátria, contra holandeses e franceses, Santo Antônio ─ representado por suas imagens ─ foi sucessivamente galgando postos militares. E em 1816 D. João VI lhe conferiu a patente de tenente-coronel (Cf. idem, p. 27 a 34).

 E, por consenso geral das candidatas e dos candidatos, foi eleito protetor dos casamentos.

 Não espanta que seu nome e os dele derivados formem multidões de Antônios, Antônias, Antoninos, Antoninas, Antonietas. Sem esquecer os apelidos Antoninho, Toninho, Tonico, Tonho, Tonhão e Totó.

  Antônios ilustres – Dessas multidões de brasileiros, sobressaem várias personalidades que, recebendo água na fronte, podem ter ouvido de um padre católico: Antônio, eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. A título de exemplo, citemos alguns:

 Antônio Felipe Camarão (+-1590-1648), pernambucano, índio guerreiro que lutou contra os invasores holandeses;

 Antônio Francisco Lisboa, o insuperável Aleijadinho (1730-1814), mineiro, escultor;

  Santo Antônio de Santana Galvão [Frei Galvão] (1739-1822), paulista, frade franciscano que se tornaria o primeiro Santo brasileiro, sem aspas…

  Padre Diogo Antônio Feijó (1784-1843), paulistano, regente do Império;

 Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), poeta e teatrólogo maranhense;

 Antônio Conselheiro [Antônio Vicente Mendes Maciel] (1830-1897), baiano, líder religioso e chefe militar em Canudos;

 Dom Antônio Macedo Costa (1830-1891), baiano, Bispo do Pará, Questão Religiosa;

 Antônio Carlos Gomes (1836-1896), paulista, compositor de óperas;

 Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira [Antônio Gonçalves de Oliveira Júnior] (1844-1878), paraibano, Bispo de Olinda e Recife, Questão Religiosa;

 Antônio Vicente Filipe Celestino (1894-1968), cantor popular carioca.

MILAGRE de S. Antônio: mula faminta despreza alimento e ajoelha-se diante de Jesus na Eucaristia

  Antropônimos – Tem mais: com esses antropônimos são designadas também inúmeras instituições, estabelecimentos, vias públicas, bairros, povoados e cidades por todo o Brasil.

 É a devoção popular fazendo vincar a influência do Santo lisboeta-paduano nas atividades do dia-a-dia da vida desta Nação. Na sua História, na religiosidade, na cultura, nas artes.

 Entretanto, estes são aspectos periféricos a propósito de Santo Antônio. Porque nada disso poderia ser dito se não fosse o fato dele ter praticado as virtudes católicas em grau heroico.

 Fiel seguidor de Cristo, ele transformou sua vida numa rotina de santidade, empenhando-se em salvar as almas. Pois foi isso que fez dele o Santo dos milagres, canonizado em menos de um ano e colocado nos altares.

 Um traço pouco lembrado a respeito de sua personalidade é o fato dele ser considerado Doutor da Igreja, mais especificamente, Doutor do Evangelho. †