Costumes católicos na Minas de ontem

 

Qual peregrino, chegando de navio ao Rio de Janeiro,

não tem seus olhos atraídos para

o Cristo Redentor?

 

E, se continua sua peregrinação, vai encontrando, pelo Brasil afora, além de vários Cristos de braços abertos, imagens sem conta de Sua Mãe Santíssima e de inumeráveis Santos.

São marcas indeléveis da presença católica em nosso território. Basta acessar a lupa, aleatoriamente, em pequena porção do mapa nas primeiras décadas do século passado. Por exemplo, na região de Boa Esperança, sul de Minas.

“A nossa matriz, com sua torre bem alta, e, no cimo dela, de braços abertos, o Cristo Redentor, dominando toda a paisagem, tornou-se um símbolo para a nossa terra e para a nossa vida” (Geraldo Freire  [deputado federal de 1961 a 1975] – Ao Longo da Vida. Brasília, 1984, p. 12.

Sinos e saudades – Cada pessoa nascida nessa cidade, “mesmo que não seja católica, traz em si, indelevelmente gravada, a marca daquela igreja, não apenas em sua projeção física, mas na indefectível projeção espiritual, que define a nossa personalidade e assinala o rumo das nossas vidas. O casamento dos antepassados, o nosso batismo, a crisma, a primeira comunhão, mais tarde o nosso próprio casamento, o batizado de nossos filhos, e, quem sabe algum dia, o réquiem para nossos corpos inanimados a caminho do último descanso, eis aí as raízes que nos amarram às estruturas daquela veneranda igreja matriz.

“Os seus sinos de bronze de grave sonoridade (Ah! São Paulo aos Coríntios: Se eu fosse como o sino que vibra ou como o bronze que soa!), com suas pancadas vigorosas, acordam-nos cada manhã para as preces e o trabalho, e ecoam, ao longo da vida, como marteladas que despertam as doridas saudades da infância longínqua” (Idem, idem).

O fordinho – Saudades essas que não deixam esquecer  a chegada do primeiro automóvel a Boa Esperança, um ford bigode, encarapitado sobre um carro de bois. Uma festa! Todo mundo acorre para ver a novidade fabricada nos Estados Unidos por Henry Ford, na década de 1920.

Por quê bigode? A imaginação popular é muito fértil. No volante do fordinho, duas hastes com a forma de bigode, foi o suficiente para o populino “colar” este nome no veículo americano, como já tinha feito com a locomotiva a vapor “Maria Fumaça”.

Inesquecíveis são também o terço e a ladainha de Nossa Senhora, rezados pelo Pe. Juca e numerosos fiéis, que subiam até o alto da colina onde ficava a capela do Rosário. A belíssima oração de São Bernardo: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que alguns daqueles que recorreram ao Vosso auxílio e imploraram o Vosso socorro fosse por Vós desamparados…”, fechava o evento com chave de ouro.

Mas abertas o ano todo ficavam as almas do povinho para participar dos numerosos festejos religiosos, principalmente a Semana Santa. As procissões do Encontro (de Jesus carregando a cruz, com sua Mãe) e do Enterro de Jesus, eram eventos que todos faziam questão de estar presentes, mesmo as gentes da roça, que compareciam em peso. Sobre lombos de cavalos ou em carros de bois, não deixavam de levar pesadas matalotagens: latas e mais latas de arroz, feijão, carne de porco na gordura, biscoitos e os mais saborosos quitutes.

Nessas ocasiões, lágrimas corriam nas faces, ao ouvir pregadores recordarem os padecimentos que Cristo sofreu por causa dos pecados de toda a humanidade. #

 

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