Tesouros da Igreja na balança de Deus

 

Boas contas, a garantia possível

 

Há mais de quatro mil anos, a invenção da balança teve relação com a necessidade de se pesar um valioso metal e… corações humanos. Com efeito, esse instrumento foi elaborado para pesar ouro; entretanto, egípcios ─ lá dos idos tempos faraônicos ─ passaram a usá-lo também para a pesagem de corações de pessoas mortas, a fim de se saber o destino eterno de suas almas: paraíso ou inferno.

Alguma semelhança com a Comunhão dos Santos católica?

À primeira vista, nenhuma, pois esta verdade ─ consignada no nono artigo do nosso Credo ─ não é passível de ser pesada por mãos humanas.

Mas na balança divina, sim.

A Igreja Católica é o conjunto de todos os Santos do Céu ─ notadamente de Nossa Senhora ─, do Purgatório e da Terra, em comunhão, incluindo as coisas santas: graças, boas obras e méritos.

As graças são os benefícios e favores que a vida sobrenatural nos proporciona, de modo especial pela intercessão dos santos junto a Jesus Cristo.

Aspecto da glória celeste

Os créditos que sobram aos que estão na glória fazem parte do tesouro da Igreja, que é sem limites devido aos méritos infinitos da Paixão de Nosso Senhor.

Esses benefícios são postos em circulação ─ através da Comunhão dos Santos ─ para todos os que mereçam. Em contrapartida, ninguém está dispensado do dever de imitar os bem-aventurados, dar o bom exemplo aos concidadãos, fazendo portanto depósitos no banco dos tesouros espirituais. É a garantia possível para que o coração da gente (a alma) não seja rejeitado na prova da balança de Deus, desmerecendo assim o Paraíso.

Pois, segundo o Apóstolo São Paulo, “nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si” (Rm 14,7): “se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele” (I Cor 12, 26), numa visualização do Corpo Místico de Cristo.

*

ORAÇÃO DO CREDO

CREIO em Deus Pai todo-poderoso, criador do Céu e da Terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.

*

Os balões e a ‘lei da gravidade espiritual’

Aplicando a façanha dos irmãos Montgolfier

à prática das virtudes cristãs

  O DESEJO de imitar os pássaros deve ser tão antigo quanto os próprios seres humanos. Por quê não voamos também?

 Mas só no século XVIII que o homem conseguiu alçar os primeiros voos. Em Portugal, o brasileiro Pe. Bartolomeu de Gusmão, em 1709 ─ na presença do rei e de um futuro papa ─ fez experiências com balões, mas não foi possível prosseguir.

 No entanto, a notícia fez seu caminho, e diversas tentativas pipocaram em outras partes.

 Os Montgolfier foram os pioneiros: em 1783 fizeram um aeróstato que carregava um homem, voando a algumas centenas de metros acima da terra e pousando com segurança! Portanto, desafiando o que Newton acabava de ‘batizar’ como lei da gravidade. O rei e a rainha da França assistiram admirados a tão inusitado evento, realizado no parque de Versalhes.

 Essa invenção consistia num enorme balão de 30 metros de diâmetro, feito de tecido, impulsionado pelo calor de palhas queimando. O ar quente puxava para cima o balão, a ponto de precisar de oito homens para segurar as amarras. Liberadas estas, iniciava-se a subida.

 “Esta é uma bela imagem da elevação das almas a Deus. ‘Aquecidas’ pela prática das virtudes, especialmente da caridade, iniciam elas a subida espiritual e começam a ‘voar’. Costuma haver, porém, em consequência do pecado, amarras que as prendem à Terra e lastros que dificultam seu itinerário rumo à perfeição. É imperioso, portanto, cortar aquelas e alijar estes, para o espírito humano poder elevar-se ao transcendente e ao eterno.

 “À semelhança de nosso corpo, padecem as almas dos danosos efeitos de uma espécie de lei da gravidade espiritual por onde nos sentimos atraídos para o mais baixo, o mais trivial, o que nos exige menos esforço. (…)

 “Em vista dessa nossa má tendência, Cristo nos ensina serem indispensáveis a renúncia e a abnegação, para sermos verdadeiros discípulos seus”.

 É o que afirma Mons. João Scognamiglio Clá Dias, em “O inédito sobre os Evangelhos”, vol. VI, p. 327-328. E conclui que o pedido feito a nós por Jesus consiste sobretudo em vivermos sem apegos às coisas terrenas, seguindo o exemplo das águias, que voam sem amarras para melhor contemplar o Sol (cf idem, p. 339). #  

Nababo, sofrimento e glória

Caprichos de nababo fazem lembrar equilíbrio

entre felicidade e sofrimento

  NA noite dos tempos, lá no longínquo Oriente, um nababo muito rico – perdoe-nos o pleonasmo… – e egoísta, empregava boa parte de suas fortunas para evitar o sofrimento.

 Construído em bonita região, seu palácio foi calculado, da localização ao layout, tendo essa ideia como fundo de quadro. Montes abatidos, vales nivelados – até parece que aplicava em proveito próprio a mensagem do Batista (cf Lucas 3, 4-6) –, para que a estrada, com curvas suaves, não apresentasse nenhum incômodo.

 Sua carruagem estacionava bem junto ao palácio, onde tinha um carrinho confortável, que dava acesso às portas de todas as dependências. Nem é preciso dizer que estas se situavam todas no plano terra-terra, símbolo da mentalidade do personagem.

 Sobre as iguarias de sua mesa nem falemos, pois o requinte dessa mentalidade se concentrava em seu leito, preparado com os mais delicados materiais , inclusive camadas de pétalas de rosas, dispostas cuidadosamente.

 Mesmo assim, em certo dia, nosso nababo amanheceu queixoso de dores. Por quê? Depois de muito procurar, descobriu-se a causa: havia uma pétala dobrada…

  Oitavo sacramento? Esta historinha ilustra bem o Evangelho de São Mateus 13, 31-35. Com efeito, alguém com a mentalidade pintada acima, alcançaria ser feliz nesta Terra? E na eternidade?

“É no sofrimento que se encontra a porta da autêntica felicidade, e no amor ao próximo o sinal característico do cristão. (…) Querer programar uma vida sem sofrimento é algo impossível, pois não há ninguém livre de contrariedades”, afirma Mons. João Scognamiglio Clá Dias (O inédito sobre os Evangelhos – volume V – São Paulo: Lumen Sapientiae, 2012 , p. 325).

Santos no Céu
Santos no Céu: felicidade eterna

 O fundador dos Arautos do Evangelho, citando autores conceituados, explana sobre a necessidade – para equilibrar nossa natureza desordenada – da aceitação da dor e do exercício do sofrimento, o que poderia ser um “oitavo sacramento” (Idem, cf. p. 326). E acrescenta:

“Deus, que nos criou ávidos de encontrar a felicidade, também colocou em nossa alma a capacidade de sofrer” (Idem, p. 327). Diante da dor não se deve perder o ânimo. “Pelo contrário, quando a cruz se apresentar, cabe-nos imitar Nosso Senhor Jesus Cristo: ajoelharmo-nos, oscular o instrumento de nossa amargura e pô-lo aos ombros com determinação, certos de que assim se inicia o caminho da nossa glória” (Idem, p. 331).

 Afirma ainda Mons. João que nem sequer vamos nos lembrar das dificuldades que tivemos neste mundo, pois o estado de prova terá passado como num piscar de olhos. Restará apenas a bem-aventurança (cf idem, p. 337).

 Eis aí algumas pontas de trilho que podem sinalizar boa viagem à locomotiva de nossa fé, para não termos surpresas desagradáveis na chegada à estação terminal. #