São Pio X em 10 fatinhos

De padre a Papa, um

homem de ferro 

Em 2 de junho de 1835 nasce José Melchior Sarto Sanson, Papa de 1903 a 1914, que marca sua época.

Pela simplicidade, pelo amor aos pobres, pelo combate à heresia modernista, pelo empenho em salvar as almas, pela santidade enfim.

A vida de São Pio X é um modelo de maravilhosa exemplaridade.

Beppi, criança pobre que só tem um calçado, para ir à escola anda descalço parte dos 7 km.

Seminarista inteligente, amigo dos livros.

Coadjutor, pároco, secretário de três Bispos.

Bispo da cidade aristocrática e medieval de Mântua.

Cardeal-Patriarca de Veneza, a cidade mais bela do mundo.

Organizador talentoso, humilde, acessível.

Eleito Papa, abre às crianças as portas dos sacrários.

Mas fecha à pior das heresias as portas da Igreja.

Sem medo de complicações políticas, luta pelos direitos de Cristo e da Igreja.

1

Líder natural Com a mãe aprende uma sincera piedade, e com o pai um firme senso da verdade e da justiça. Bem novo ainda, Beppi já ajuda este a cuidar da vaca.

Na paróquia é o chefe natural dos meninos do coro. Sempre leal, sem caprichos nem melindres.

Na escola destaca-se com talentos pouco vulgares, conquistando notas máximas. Num dos melhores seminários da Itália, em Pádua, o primeiro lugar é sua cadeira cativa.

Ele segue à risca a escola de Jesus. Inteligente e aplicado, não para mais de adquirir conhecimentos e progredir na virtude.

Unindo a teoria com a pastoral, torna-se logo um respeitado pastor e pregador, na cidade pequena, na cidade maior, e até na grande Veneza. Os títulos vão chegando: Cônego, Monsenhor, Bispo, Cardeal-Patriarca, Papa.

2

Avisado pelo sino Em tempos idos o sino tinha um papel muito importante na vida das pessoas: além de marcar as horas e chamar para as missas e orações, avisava sobre incêndios, ladrões, falecimentos. Conforme o toque, sabia-se quem morreu: homem, mulher, idade etc.

Tendo notícia de que um clérigo seu amigo está mal à morte em cidade vizinha, Pe. Sarto monta num cavalo e galopa para ver se o encontra vivo ainda. Ao avistar a torre da igreja, ouve o característico toque fúnebre do sino, compreendendo que se trata do padre tal. É tarde demais. Desce do animal, ajoelha e reza por sua alma.

3

Pontaria certeira Em Salzano, durante as aulas de catecismo, o Pe. Sarto não dá sossego a nenhum dorminhoco: acorda-o jogando seu barrete no rosto dele. Esse eficiente recurso se estende às homilias na igreja. O sonolento tem de subir ao púlpito para devolver a cobertura ao pregador, que, aliás, nunca erra o alvo. Imagine o efeito que isso produzia…

4

Profecia dos nove anos Todos sabem que o Cardeal não pensa em ser Papa. Credita-se a seu senso de humor a brincadeira-profecia que faz a alguns surpresos amigos, entre dois goles de café, enquanto contempla as plácidas águas venezianas:

“Terei muita pena em deixar Veneza. Sim, porque em breve chegará a minha vez. Pois, de nove em nove anos cai uma folha de meu calendário. Fui nove anos coadjutor de Tômbolo. Nove anos pároco em Salzano, e outros nove, cônego em Treviso. Durante nove anos governei Mântua como Bispo. Que farão de mim, ao concluir os meus nove anos de Patriarca de Veneza? Papa? Na realidade, não vejo outra solução”.

5

Incentivo à Eucaristia Doutrinas elocubradas pelo bispo holandês Cornelius Jansen (1585-1640), e que despertam a simpatia dos calvinistas, espalham nos meios católicos um falso respeito a Nosso Senhor, que tem como efeito, ao cabo de dois séculos,  afastar as pessoas da comunhão eucarística.

O Cardeal de Veneza combate com todo empenho essa mentalidade jansenista, culpada, entre outras coisas, de impedir que as crianças com menos de 13 anos recebessem a santa comunhão.

Uma mãe lhe apresenta sua filhinha de 7 anos, que chega a chorar por

11 anos tem a Beata Imelda, que morre de tanta felicidade ao receber a primeira comunhão,  em 1333. São Pio X a institui padroeira de quem comunga pela primeira vez.

não poder receber a Eucaristia. O Prelado examina seus conhecimentos de catecismo, e diz para a mãe: traga-a aqui amanhã para comungar das minhas mãos!

Sentado no trono de São Pedro, estende esse santo benefício a todas as crianças católicas do mundo a partir dos 7 anos ─ desde que devidamente preparadas ─, para que, “antes do diabo, entre nelas o Senhor!”

O “Papa da Eucaristia” regulamenta e incentiva a comunhão frequente e até diária, para pessoas de todas as idades.

6

Homem de ferro, mas cortês Caminha com passo ligeiro, apesar de avançado em anos. Com voz suave, sabe falar com todos, e a todos ouvir. Assim, ele cria uma atmosfera jovial pervadida de santidade.

Recebe em audiência quaisquer pessoas, que ficam impressionadas com a simplicidade e a profundidade de seu olhar. Transparece nele o sobrenatural encanto de sua virtuosa alma.

Isso apesar de seu temperamento enérgico, a ponto de um marinheiro veneziano ter comentado que “elegeram Papa um homem de ferro!”

Bem temperados, rigor e cortesia podem andar juntos…

7

Todas as heresias O modernismo foi uma heresia que tentava ajustar o Catolicismo com a tendência de certo movimento cultural moderno, de considerar que a realidade está em perpétua evolução. Daí a negação da doutrina católica.

São Pio X empreendeu heroica luta contra isso, que ele estigmatizou como sendo “compêndio de todas as heresias”. A peça principal da ‘artilharia’ pontifícia foi a encíclica Pascendi Dominici Gregis, que reduziu a pó as doutrinas de Alfred Loisy (1857-1940). Encurralada, a heresia morreu. Mas seu veneno ─ já espalhado nas pastagens das ovelhas de Jesus ─, teve de ser erradicado com outra peça ‘bélica’, o juramento anti-modernista, que o Papa exigiu que os eclesiásticos assinassem. Foi a pá de cal jogada em cima dos restos do modernismo.

8

Nepotismo, não! Uma de suas normas é não favorecer o nepotismo. Tinha um sobrinho padre, a quem estimava muito.

─ Vossa Santidade não vai promovê-lo?

─ Não. Fique onde está; tem de fazer por merecer.

A três de suas irmãs, fiéis auxiliares dele há décadas, é oferecido ser duquesas ou marquesas. Não aceita.

Irmãs do Papa são seus títulos. Nem eu nem elas querem outro!

Residentes em Roma, visitam o irmão com frequência, bem como têm lugar de honra na capela papal e por ocasião das grandes cerimônias. Caritativas e piedosas, têm como ponto de honra não incomodá-lo: “Coitadinho do Beppi! Tem agora de se preocupar com os pobres pelo mundo todo”.

Nenhum parente seu usa em proveito próprio sua santa memória.

9

Missas e dinheiro Tendo o governo português se apoderado dos bens da Igreja, os bispos lusitanos pedem a São Pio X um milhão de liras. Este diz que não dispunha dessa quantia, mas fala para o emissário voltar no dia seguinte, para ver se aparecia. E apareceu. E no mesmo dia, doada por uma rica senhora, apareceu nas mãos pontifícias a mesma quantia.

É muito cuidadoso na administração das finanças, sobretudo no tocante a encomendas de Missas, que lhe chegam do mundo inteiro:

─ Não quero torrar-me no Purgatório por falhas na administração das Missas!

10

Milagres em vida Durante uma audiência, São Pio X, segurando uma criança paralítica, esta se solta de seus braços e sai correndo!

Ele garante que o Cardeal Ruffini sararia da tuberculose em alguns dias, e foi o que aconteceu.

Os comentários sobre milagres feitos por ele começam a repercutir na imprensa, e a incomodar sua humildade. Defende-se, dizendo:

─ É ao poder das Santas Chaves que deveis agradecer, não a mim.

A dignidade do Papado impressiona a ele próprio.

Grande incentivador da instrução religiosa não só para crianças mas também para adultos, o Papa catequista publica um livro que fica famoso, e que é conhecido hoje como “Catecismo de São Pio X”.

O seu Secretário de Estado foi o anglo-espanhol Cardeal Merry del Val, que teve papel importante na condução dos assuntos da Igreja. #

Morte 20/08/1914 * Canonização em 29/05/1954 * Festa 21 de agosto

Josefina Bakhita: escrava e santa

Sudão, grande produtor de algodão

8 de fevereiro

Da chibata pagã

à bondade cristã 

Década de 1870: invasores transtornam o Sudão, em busca de bens de valor e de jovens selecionados ─ homens e mulheres ─ para serem vendidos por altos preços nos mercados de escravos. As famílias especialmente visadas são as mais ricas e influentes como a de Bakhita, nascida em 1869.

Embora “afortunada” seja o significado de seu nome, só no fim da caminhada se torna realidade, pois na África a fortuna foge dela, deixando a escravidão ocupar seu lugar. Esta traz a tiracolo os sofrimentos morais e físicos, além de muitas humilhações. Seu calvário começa aos 7 anos, quando é raptada. Nos mercados de escravos ela é comprada e vendida várias vezes.

Afinal, e ainda na capital de seu país, o último comprador de Bakhita é um cônsul italiano, que acaba levando-a para a Itália, mais tarde.

Nunca mais pôde ver seus queridos pais, irmãos e irmãs. Oportunidade não faltou, mas o que deteve seus passos foi o pavor do regime da chibata e da… navalha!

Na Península vemo-la na função de babá numa família, e depois trabalhando no convento das irmãs canossianas.

Em 1890 ela foi batizada pelo cardeal patriarca de Veneza com o nome de Josefina, tendo 21 anos. Depois viu despontar a vocação religiosa, e optou por se tornar freira canossiana, na cidade de Schio.

Irmã Morena ─ Foram cinquenta anos de dedicação desinteressada nas várias funções exercidas na comunidade religiosa da Congregação das Filhas da Caridade Canossianas. “Irmã Morena” ─ como era carinhosamente chamada ─ foi sacristã, bordadeira, cozinheira e ainda cuidou da portaria.

Por seu zelo apostólico, bondade e generosidade, era muito estimada por todas. Com mais três virtudes ─ alegria constante, humildade e simplicidade ─ acabou por conquistar também os corações da população local.

Correndo os anos, veio uma enfermidade dolorosa e prolongada, que a levou para a Casa do Pai, a felicidade eterna.

Mas na agonia teve de debater-se com os longos e terríveis momentos vividos na escravidão, que vieram à memória.

Irmã Josefina Margarida Bakhita faleceu no dia 8 de fevereiro de 1947, sendo canonizada no ano de 2000 por São João Paulo II. #

*   *   *

Reze com a Irmã Bakhita

“pela minha gente” da África:

“Ó Senhor, se eu pudesse voar lá longe, entre a minha gente e proclamar a todos, em voz alta, a Tua bondadeOh! Quantas almas eu poderia conquistar para Ti!

Entre os primeiros, a minha mãe e o meu pai, os meus irmãos, a minha irmã ainda escrava… e todos, todos os pobres negros da África.

Faça, ó Jesus, que também eles Te conheçam e Te amem. Assim seja!”

 

Mais detalhes sobre Santa Bakhita

 

Fra Angélico, o pintor católico

 

Nas suas pinturas, o sobrenatural

está sempre presente

 

Ao longo de sua História, a Igreja Católica tem dado origem a inúmeros talentos artísticos, com estilos e realizações tão diversos quanto belos e enriquecedores para a piedade cristã. Nessa constelação de talentos, porém, uma estrela sobressai pelo seu brilho mais intenso e atraente: o bem-aventurado Fra Angélico, com toda a justiça considerado o pintor católico por excelência.

Segundo se conta, ao pintar o rosto de Nossa Senhora, Ela lhe aparecia. Daí o caráter celeste das pinturas nas quais Ela está presente. São obras de um frescor sacral incomparável.

De acordo com os estudiosos de seus métodos, ele mesmo fabricava suas magníficas tintas, muitas vezes triturando pedras semi-preciosas, cujo pó, misturado a outros elementos, forneciam-lhe as melhores cores de sua extraordinária palheta.

Embora já vivesse na Renascença, foi um artista caracteristicamente medieval. Seus afrescos e retábulos são um reflexo fiel das almas que fizeram da Idade Média a época áurea da Cristandade. O sobrenatural está representado em todas as suas obras. Certa luminosidade está presente, de modo muito particular, nas virgens perpetuadas em maravilhosas composições de seu magistral pincel.

A virtude da pureza, quando bem guardada, proporciona as condições excelentes para o triunfo do espírito sobre a matéria. A pessoa pura é toda alma, toda transparente de luz.

Assim Fra Angélico pinta suas virgens reluzentes, como dotadas de um fulgor vindo de dentro para fora e que ilumina todo o seu ser. Porque o espírito é claro, enquanto a matéria é opaca. A intenção do artista é exatamente representar essa irradiação do espírito. É o pintor das virgens.

E dos anjos.

Seus célebres anjos têm uma expressão límpida, honesta, forte. Todos os contrastes extremos e harmônicos se encontram neles, numa síntese magnífica, fruto de uma forma de temperança extraordinária e perfeita. Diante da trombeta de um deles, vem-nos a pergunta: “Que música será esta?”

Ora, só alguém com muito senso do sobrenatural poderia retratar assim a Virgem Maria, anjos e santos. Daí podemos perceber como era a maravilhosa alma de Fra Angélico. #

(Resumido de: Plinio Corrêa de Oliveira – Luzes da Civilização Cristã

tomo 2 – p. 75 – O pintor do sobrenatural)

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Guidolino di Pietro

Fazendo de conta que é o próprio biografado que narra para você alguns traços da vida dele, veja quem foi Fra Angélico:

Numa famosa península, venho à luz em 1395, sob o nome de Guido, e assim me faz batizar meu pai, o Sr. Pedro. Daí meu primeiro nome: Guidolino de Pedro.

Como faz todo bambino, minhas estripulias dão muito trabalho a mamãe. Mas isso passa, e chegam os estudos, durante os quais passo de anos sem problemas.

Entrando para os dominicanos de Fiésole, meu nome sobe de tom: Frei João. Aí começo a pincelar tintas coloridas nas paredes brancas do convento, e todo mundo quer entrar para ver os trabalhos.

Tem início os numerosos pedidos a este João de Fiésole para espalhar o belo em casas religiosas, palácios e residências. Caindo alguns trocados em minha bolsa, destino-os para o sustento de meus confrades.

Não sei porque, mas apelidam-me de Fra Angelico (Frei Angélico). Será que é porque eu pinto anjos?… Ou porque sempre rezo antes de começar uma pintura? Pode ser também porque Maria Santíssima ‘pousa’ para mim quando vou representar a face dEla!

Depois de tantos anos tentando mostrar para as pessoas minha visão das personagens celestes, sou convocado para o Céu. Isto se dá em 1455, tendo eu 60 anos.

O último apelido que me deram na Terra é Beato Angélico, o que parece uma profecia, pois a beatificação veio, mas demorou um pouquinho: 500 anos…

Agora só falta ser canonizado e chamado de São Fra Angélico. Mas isso fica nas mãos de Deus, pois aqui no Paraíso não faz sentido estar pensando em ‘fazer carreira’…

Mesmo assim o Papa já me honrou com o prestigioso título de “Padroeiro Universal dos Artistas”. Com muito gosto peço ao Pai por esses meus colegas!