De Caim a Putin                     

Pequeno histórico de

grandes guerras

HOUVE uma tremenda guerra — talvez antes da criação do tempo —, com vencedores e vencidos, embora sem acordo de paz. Mortos e feridos? Não houve, pois os contendores eram Anjos, portanto imortais. E os derrotados? Foram presos.

Não todos. Uma parte deles conseguiram certa liberdade para tentar vingança, espalhando revolta entre humanos, com o uso de uma arma simples mas devastadora: lábia de serpente! Eva e Adão que o digam.

Mas a origem das guerras na Terra se perde na noite dos tempos. E talvez não seja exagerado dizer que tem relação com Caim. Pois o fratricídio foi se espalhando, se requintando, se multiplicando, a ponto de um povo começar a brigar com outro. Nasceu assim a guerra!

O próprio rei sábio Salomão (926 a. C.) — talvez baseando-se na história de seu povo —, constata a existência de um tempo próprio para guerrear… (cf Eclesiastes 3, 8). Pois os israelitas tiveram de usar largamente desse recurso com o objetivo de se manterem fiéis à Lei.

Outros povos, outras guerras. Tantas, que é difícil contabilizar.

ENTRETANTO, historiadores destacam algumas que contribuíram para mudar a História, pois redundaram em  repercussões — algumas duradouras — sobre a organização política, a economia e o modo de viver. Esses entrechoques de armas moldaram a Antiguidade, definiram os mapas na Idade Média e deram formas ao Estado moderno e contemporâneo. Sem falar nos sofisticados sistemas de matar, que só fizeram aumentar nos últimos tempos.

Além disso, cumpre acrescentar as chamadas guerras química, bacteriológica, psicológica, etc.

Peloponeso: Conflito armado entre Atenas e Esparta. Depois de 27 anos de luta, Esparta conseguiu a vitória, com o apoio da Pérsia, em 404 a.C..

Guerras Púnicas: Três longas brigas entre Roma e Cartago, terminadas em 146 a.C., com a destruição total da cidade africana. Roma estendeu assim seu domínio sobre todo o Mar Mediterrâneo.

Destruição de Jerusalém: No ano 70 d.C., a cidade foi cercada, saqueada e destruída por 60 mil soldados comandados por Tito, futuro imperador romano. Nem o templo foi poupado.

As Cruzadas (1095 a 1291) consistiram em várias expedições guerreiras promovidas por católicos europeus, para reconquistar os lugares onde nasceu, viveu, morreu e ressuscitou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Gengis Khan (1162-1227) unificou o império mongol, usando alguns expedientes para tirar dos adversários a vontade de resistir, bem como fazendo com que o número de seus combatentes parecesse muito maior (cf Wikipédia). Antecessor da “guerra psicológica”?

A guerreira Santa Joana d’Arc: Incentivada por manifestações sobrenaturais, comandou o exército francês a certa altura da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), conseguindo muitas vitórias. Traída, foi queimada viva em praça pública em 1431, tendo apenas 19 anos. Reabilitada, canonizada, é padroeira da França!

Reconquista espanhola (718- 1492): Em cerca de 800 anos de heroicas lutas, os reinos cristãos da Península Ibérica ficaram livres dos muçulmanos, que a dominavam desde 711.

Batalha naval de Lepanto: Com incentivo do Papa São Pio V, algumas nações católicas reunidas na Liga Santa, derrotaram o Império Otomano, em 7 de outubro de 1571. As pretensões de domínio muçulmano na região do Mediterrâneo naufragaram junto com Ali Pachá e a maior parte de sua esquadra. Em agradecimento pela milagrosa vitória, o Papa instituiu esta data como festa de Nossa Senhora do Rosário.

Guerras napoleônicas (1803-1815) – Embaladas pelo espírito destruidor da Revolução Francesa, as tropas de Napoleão Bonaparte (1769-1821) empreenderam várias conquistas na Europa. O autoproclamado imperador conheceu grande derrota na Rússia ao ter de fugir do ‘general inverno’… Mais derrotas o fizeram perder o trono e morrer no exílio.

1ª Guerra Mundial (1914-1918): Foi um conflito bélico centrado na Europa, mas envolvendo todas as grandes potências mundiais. Número aproximado de mortos: 10 milhões de militares e 8 milhões de civis.

2ª Guerra Mundial (1939-1945): Foi uma guerra que envolveu todos os países do mundo, resultando em aproximadamente 70 milhões de mortos. Foram usadas bombas atômicas em cidades do Japão.

Vladimir Putin planejou dominar a Ucrânia em poucos dias (fevereiro 2022), com 60 km de soldados e armamentos, mas a reação ucraniana foi vigorosa, fazendo empacar o comboio militar russo. Nesses mais de 30 dias, prossegue a investida, sobretudo com bombardeios de longe e do alto. Muitos mortos, feridos, refugiados. Destruição. Teme-se que daí surja mais uma guerra mundial…

Tanto mais que já fazem 104 anos que, em Fátima, Nossa Senhora advertiu para castigos que poderiam vir para a humanidade, caso não houvesse conversão e mudança de vida. #

 

Riqueza de alma dum pobrinho de Cristo

Nos quinze anos em que fez brilhar sua variada cultura e seu vivaz senso de observação através das páginas da “Folha de São Paulo”,

Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) brindou seus inumeráveis leitores com suculentos comentários sobre Religião, sociologia, mentalidades.

Nem os mendigos ficaram de fora…

TRATAR do quê? Fecho os olhos para refletir. E como há pouco girei muito largamente de automóvel pelas ruas [de São Paulo], não é de espantar que me venha ao espírito uma multidão de figuras humanas. (…)

No torvelinho estão engajados até os nababos. E também a eles esse sistema de trituração de almas alcança e reduz psicologicamente ao pó da mentalidade comum.

Esforços para evitar a fome os há muitos e, sem dúvida, com algum sucesso. Por exemplo, vão rareando sempre mais os tipos do gênero dos que passarei a descrever por pena de terceiros. Muitos leitores me dirão até que não existem mais.

A rútila descrição não é minha, mas de um escritor português que alcançou em seus dias gloriosa nomeada. Leiamo-lo:

“À porta de uma tenda, apanhando os últimos raios de sol a descer, e sentado na terra, um mendigo de estrada come numa lata seu caldo esmolado.

É uma figura de doido de fome: face escaveirada, olhos em desvairo, grenha densa de cabelo em pé. As cordoveias do pescoço são de ferro negro, como o são os ossos das clavículas inteiramente escarnadas. Cobrem-no farrapos cosidos em farrapos. Nas pernas, umas como que polainas de tábua, atadas com guitas, lembram os feixes de varas dos litores romanos; e pelos buracos das alpercatas a desfazerem-se saem os dedos negros dos magríssimos pés. Nas mãos, só pele e osso, segurando em garra a escudela e a colher de estanho, desenham-se as falanges e os nós dos dedos como os de um esqueleto articulado.

“Ah, os mendigos espanhóis!

“O lápis trágico de Gustavo Doré, na sua viagem em Espanha, desenhou alguns destes espectros de fome, envoltos em capas de farrapos e cobertos com largos feltros esburacados, mantendo, no entanto, através da maior miséria, um tal aprumo que dir-se-iam serem Grandes de Espanha ou senhores de Bazan a quem as maiores tempestades da vida, arrastando-os à última miséria, obrigando-os a estender a mão à esmola, não conseguem desverticalizar-lhes a espinha orgulhosa.

“E como a arte é um sol que tudo doira, esses frangalhos, nas mãos do desenhista das visões, do negrume e da luz, tomavam aspectos de grandeza.

“Os pobres espanhóis são trágicos! Sua miséria uiva, seu aspecto é pavor. Mas um halo de beleza cerca a cabeça deste desventurado: – a humildade, a resignação de toda sua figura. Trapo humano, pobrinho de Cristo, crê, Jesus sorri para ti!” (Antero de Figueiredo, “Espanha – Páginas galegas, leonesas, asturianas, vanconças e navarras”, Livraria Aillaud e Bertrand, Paris-Lisboa, 1923, pág. 400-402)”.

*   *   *

Quanto poder evocativo, quanta riqueza de análise, quantos escachoantes coloridos na descrição! Saliento no quadro, a meu ver mais próximo do real do que se fosse pintado a tinta, um traço que o grande Antero soube deixar bem claro, porém não incluiu na condensação de seu parágrafo final. É a riqueza de personalidade, a força de alma, a elevação de vistas, em síntese, a verdadeira fidalguia de estilo, que existe a par da “humildade” e da “resignação” de coração, neste gigantesco “pobrinho de Jesus Cristo” que ele tão bem soube observar e descrever.

Heroicamente de pé no próprio âmago de seu infortúnio, verdadeiro “caballero” da melhor cepa espanhola e cristã, este homem resplandece de nobre originalidade. Não hesito em acrescentar que também de augusta respeitabilidade. Mendigo de corpo, ele é um creso de alma.

E aos meus olhos, novamente cerrados, voltam as inúmeras caras mais ou menos nutridas, apressadas e aflitas que encontrei hoje ao longo de meu caminho. Como são pobres daquilo em que este pobre é tão rico!

É bem verdade que, se a qualquer desses açodados e estandartizados personagens do século XX se oferecesse de ser este sublime mendigo, eles recusariam horrorizados. Para eles riqueza de personalidade, elevação de vistas, privilegiada força de alma, originalidade pessoal, respeitabilidade venerável, tudo isto vale menos do que uma vidinha calma, estável, farta. Ou então um vidão folgado, lauto e desanuviado.

Mas, se se oferecesse ao mendigo perder todos os seus tesouros de alma para ser um homem padrão da imensa e monótona colmeia contemporânea, com quanta indignação ele o recusaria.

E, a meu ver, a opção do mendigo seria a certa. Só ela estaria verdadeiramente consoante com o senso católico.

O mendigo é que teria razão.

Quem ainda entenderá tal, nestes tristes dias de banalidade neopagã! Nestes dias confusos, em que até a solicitude de tanta gente na Igreja parece tantas e tantas vezes confinada – com censurável exclusivismo – ao campo da matéria, com descuido dos tesouros de alma sobrenaturais e naturais que lhe incumbe distribuir a mancheias aos homens, os quais curtem a vida neste Saara espiritual de nosso fim de século…  #

E o mendigo tem razão…

Meu vizinho, o vulcão

Encarapitado numa ilha espanhola das Canárias, o vulcão

Cumbre Vieja jorra crescentes toneladas de lavas

desde setembro de 2021

Mas, graças a Deus, estas não atingem ninguém, pois os espertos canarenses escapam a tempo. Entretanto, suas casas, comércios e plantações não têm tido a mesma sorte: ficam sepultados pela magma de 900 graus, que vai cobrindo ou incendiando tudo que encontra, em sua descida serpentinosa da ilha de La Palma para o oceano.

E tem mais. Vulcanólogos não conseguem prever quando e se isso terá um fim, e trabalham com a hipótese de resultar num tsunami de grandes proporções.

Como é sabido, o vulcão é um dos elementos da natureza com maior poder destrutivo. Algumas explosões são mais fortes do que poderosas bombas feitas pelo homem. A elas são creditadas muitas mortes de pessoas, de animais, de vegetação; mudanças topográficas consideráveis, bem como profundas alterações do clima.

Também na ilha açoriana do Faial, o vulcão dos Capelinhos (1957-1958), provoca grande impacto econômico e social, embora não tenha matado ninguém. Casas, bens e um modo de vida são perdidos. Metade da população tem de emigrar, devido aos efeitos das erupções.

Os fenômenos obrigam ainda a cessar todo labor econômico naquela zona da ilha. Ainda bem que aparecem mãos generosas: pão, legumes, frutas e até roupa chegam com regularidade.

Durante a atividade vulcânica, os faialenses vivem 13 meses de medo e de fascínio. Sentimentos opostos, causados pelos frequentes tremores de terra, as fortes explosões, as colunas de cinza, e a luz da lava que se eleva ao céu, noite e dia. Que espetáculos de som e luz!

Talvez isso – somado ao fato da poeira vulcânica tornar fértil a terra – ajude a explicar o motivo pelo qual certas vizinhanças de vulcões têm relutado em emigrar. Diante das incertezas – se a fúria do vulcão vai aumentar ou não, e para onde ir –, as pessoas preferem ir ficando… E acabam se acostumando a conviver com o terrível e maravilhoso vizinho…

Ainda bem que há o recurso da oração. Diante de fenômenos tão desproporcionais ao ser humano, nada melhor do que recorrer Àquele que tem todo o poder no céu e na terra (cf Mateus 28, 18). #