A Redenção, na plenitude dos tempos

 

Por quê Cristo nasceu só depois de 4.000 anos

da criação do homem?

 

  As palavras voam, os escritos permanecem. O provérbio não especifica, mas parece que voam lentamente, pois as informações sobre o começo da humanidade demoram uns 2.500 anos para pousarem no Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).

Pentateuco
Rolos dos 5 livros do Pentateuco Fonte: Cleofas

 Com efeito, esses primeiros cinco livros do Antigo Testamento foram escritos por volta do ano 2.000 a.C.. Ainda bem que isto se deu antes que as palavras se perdessem no esquecimento, e a humanidade voltasse as costas a seu Criador. Pois é nesse período histórico ─ dominado pelo paganismo ─ que consta a existência de alfabetos distintos, em quatro cantos do mundo: Mesopotâmia, Egito, China e México.

 Então, será de bom tom supor-se que a invenção da escrita tenha sido feita com a participação de Deus, desejoso de transmitir ao homem as suas Leis, de maneira não volátil. No Monte Sinai esses mandamentos divinos gravados em pedra sinalizaram para sempre a conduta que a humanidade devia seguir. Realizou Deus, desse modo, um dos importantes passos para se operar a Redenção, chegada a plenitude dos tempos.

 O porquê da demora – “(…) o Salvador veio na plenitude do tempo conforme Epístola aos Gálatas, 4, 4. Diz Agostinho: ‘Muitos se perguntam por que Cristo não veio antes. É que a plenitude do tempo ainda não havia chegado, de acordo com a disposição d’Aquele por quem todas as coisas foram feitas no tempo. Assim que chegou a plenitude do tempo, veio Aquele que devia nos libertar do tempo. Uma vez libertos do tempo, chegaremos a essa eternidade em que o tempo terá desaparecido’.

 “À doença universal, forneceu um remédio universal, o que faz Agostinho dizer: ‘Então chegou o grande médico, quando todo o universo era um grande enfermo’ (JACOPO DE VARAZZE. Legenda Áurea – Vidas de Santos. Cia. das Letras – São Paulo, 2003, p. 48).

 Com essas indicações, fica mais fácil de entender a demora da vinda do Messias, sobretudo se considerarmos o que diz São Gregório de Nissa (330-395), respeitado comentador das Sagradas Escrituras:

Caim mata seu irmão Fonte: Kerigma

 “Eis a razão por que o Divino Médico não aplicou o seu tratamento ao mundo imediatamente após o ciúme de Caim e o assassínio de Abel, seu irmão. […] Foi quando o vício atingiu o seu auge e não restava nenhuma perversidade que os homens não tivessem ousado, que Deus começou a tratar a doença. Não no seu início, mas no seu desenvolvimento pleno.

 “Desse modo, o tratamento divino pôde abarcar todas as enfermidades humanas” (Grande Catequese, 29-30 – grifos nossos).

 Jesus e a escrita – É interessante notar que Cristo só tenha nascido quando a escrita estava bem desenvolvida. Assim, a Boa Nova pôde ser divulgada também através desse meio.

 Jesus não fez uso dela, mas seus seguidores o fizeram. Haja vista os Evangelhos, as cartas de São Paulo e dos outros Apóstolos, os Atos e o Apocalipse. Ou seja, o Novo Testamento.

 Se bem que a fé entra pelos ouvidos (cf São Paulo aos Romanos, 10,17) ─ sobretudo nas homilias dominicais ─, não é fácil conceber como ela teria chegado até nossos dias, se não fosse a escrita, ressalvado o princípio gabrielino de que para Deus nada é impossível (cf Lucas 1-37).

 Coluna da Fé – “Nós só conhecemos o plano da nossa salvação através daqueles que nos fizeram chegar o Evangelho, não por outros. Este Evangelho foi primeiro pregado pelos Apóstolos. Depois, por vontade de Deus, eles o transmitiram a nós nas Escrituras, para que se tornasse “coluna e sustentáculo” da nossa fé (1 Tim 3,15)”, escreveu o teólogo, Bispo e Santo Ireneu de Lyon, passados 170 anos da morte e ressurreição de Cristo (Contra as heresias, III, 1 – grifos nossos).

 Portanto, não navega em erro quem afirmar a existência de colaboração entre a fala e a escrita e vice-versa, a qual perdura até os dias de hoje. Para a preparação das homilias, os pregadores recorrem aos livros sagrados e a homiliários. E quando estão no ambão, podem receber luzes do Divino Espírito Santo, originando daí novos escritos: “coisas novas e velhas” retiradas do tesouro (cf Mateus 13, 52). #

Joaquim F. Silva

Nasce nas montanhas de Minas em 1942. Tipógrafo. Bancário. Forma-se em Contabilidade e estuda em faculdade. Radica-se em São Paulo, onde trabalha com artigos religiosos e exerce voluntariado em entidades assistenciais. Católico apostólico romano, leigo consagrado segundo o método de São Luís Grignion, bacharel em teologia, missionário. Tem colaborado em alguns sites. É redator de respostas a dúvidas de aderentes de associações beneficentes. Autor de livrinhos de vidas de Santos. Resumindo: deixa de contabilizar valores materiais, para divulgar certezas espirituais.

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