Equilíbrio, façanha e alegria

Plinio Corrêa de Oliveira

Quando analisamos a Idade Média, notamos que esta se encontra toda semeada do desejo e da prática de atos heroicos. Não, porém, do heroísmo como vulgarmente se o entende, e sim como o propugna a Igreja, isto é, a palpitação do coração do verdadeiro católico, que o inclina de modo constante para o melhor de sua alma: a façanha.

“Façanhuda” Não se trata, portanto, de façanhas quaisquer, mas daquelas que interessam à Fé, e é a propósito delas que somos levados a afirmar ser a Idade Média toda “façanhuda”. Em seus diferentes aspectos, nos diversos terrenos de seu realizar, mesmo nos mais práticos, operativos, técnicos, ela está sempre empreendendo proezas.

De maneira que, com frequência, a altura das torres são ousadias de impulsos para o céu, as espessuras das muralhas são audácias de arquitetura, os vitrais são aventuras de luz e policromia, e assim por diante, os mil progressos artísticos e industriais da época medieval representam façanhas porque estão na fina ponta do que um espírito muito dinâmico poderia querer realizar.

Ousadia calculada E examinando aquelas maravilhas, nos perguntamos como esses homens ousaram tanto! Ousadia que comporta riscos, e esse ombrear com o perigo do fracasso é igualmente belo. Contudo, o melhor da façanha medieval é ter pensado com tanta maturidade, seriedade e prudência os seus planos arrojados que, na hora de concretizá-los, o risco está reduzido ao mínimo que as circunstâncias da época permitem. Sempre deverão contar com ele, é verdade, mas protegidos pelos escudos da prudência e da seriedade, do equilíbrio e do “saber fazer” todas as coisas com largueza de espírito.

Não há negar que aquelas grandiosas catedrais góticas, aqueles castelos-fortalezas, aquelas abadias monumentais, aquelas torres e muralhas só podem ter sido construídos por arquitetos sérios, à solicitação de príncipes ou de bispos profundamente sérios, para um

Muralhas de Ávila – Espanha

povo também ele imbuído de seriedade. Mas, ao mesmo tempo, dotados do senso católico que os leva a pôr em tudo uma nota característica que nos fala de equilíbrio, de harmonia, de contentamento de alma.

Muralhas e torres de robustez quase inabalável — como as de Ávila, por exemplo, que tive a grata oportunidade de admirar — recordam a batalha e a luta, lembram dias de tragédia, de desventuras em meio aos perigos que traziam consigo os cercos contra a cidade. Mas, como não ver nesses gigantescos panos de muro e altaneiros torreões a temperança de alma e a dignidade com que arrostavam todas as vicissitudes? Como não ver a tranquilidade e a alegria dessas pedras resplandecendo à luz do dia?

Equilíbrio e felicidade Coisas equilibradas, do mesmo equilíbrio que se acha disseminado pela civilização medieval, e que constitui o ponto de partida da felicidade da Idade Média. Nelas, todas as disposições lícitas do espírito se coadunam, dão-se as mãos, e a alma sente um certo aprumo, uma certa solidez, uma certa serenidade, uma certa distância psíquica para considerar as belezas da criação, e para subir até Nossa Senhora, para chegar até Deus — fonte de todas as grandes alegrias, de todos os heroísmos, de todas as façanhas, de todas as santidades. #

(Luzes da Civilização Cristã – tomo 2 – p. 145 a 148)

 

Josefina Bakhita: escrava e santa

Sudão, grande produtor de algodão

8 de fevereiro

Da chibata pagã

à bondade cristã 

Década de 1870: invasores transtornam o Sudão, em busca de bens de valor e de jovens selecionados ─ homens e mulheres ─ para serem vendidos por altos preços nos mercados de escravos. As famílias especialmente visadas são as mais ricas e influentes como a de Bakhita, nascida em 1869.

Embora “afortunada” seja o significado de seu nome, só no fim da caminhada se torna realidade, pois na África a fortuna foge dela, deixando a escravidão ocupar seu lugar. Esta traz a tiracolo os sofrimentos morais e físicos, além de muitas humilhações. Seu calvário começa aos 7 anos, quando é raptada. Nos mercados de escravos ela é comprada e vendida várias vezes.

Afinal, e ainda na capital de seu país, o último comprador de Bakhita é um cônsul italiano, que acaba levando-a para a Itália, mais tarde.

Nunca mais pôde ver seus queridos pais, irmãos e irmãs. Oportunidade não faltou, mas o que deteve seus passos foi o pavor do regime da chibata e da… navalha!

Na Península vemo-la na função de babá numa família, e depois trabalhando no convento das irmãs canossianas.

Em 1890 ela foi batizada pelo cardeal patriarca de Veneza com o nome de Josefina, tendo 21 anos. Depois viu despontar a vocação religiosa, e optou por se tornar freira canossiana, na cidade de Schio.

Irmã Morena ─ Foram cinquenta anos de dedicação desinteressada nas várias funções exercidas na comunidade religiosa da Congregação das Filhas da Caridade Canossianas. “Irmã Morena” ─ como era carinhosamente chamada ─ foi sacristã, bordadeira, cozinheira e ainda cuidou da portaria.

Por seu zelo apostólico, bondade e generosidade, era muito estimada por todas. Com mais três virtudes ─ alegria constante, humildade e simplicidade ─ acabou por conquistar também os corações da população local.

Correndo os anos, veio uma enfermidade dolorosa e prolongada, que a levou para a Casa do Pai, a felicidade eterna.

Mas na agonia teve de debater-se com os longos e terríveis momentos vividos na escravidão, que vieram à memória.

Irmã Josefina Margarida Bakhita faleceu no dia 8 de fevereiro de 1947, sendo canonizada no ano de 2000 por São João Paulo II. #

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Reze com a Irmã Bakhita

“pela minha gente” da África:

“Ó Senhor, se eu pudesse voar lá longe, entre a minha gente e proclamar a todos, em voz alta, a Tua bondadeOh! Quantas almas eu poderia conquistar para Ti!

Entre os primeiros, a minha mãe e o meu pai, os meus irmãos, a minha irmã ainda escrava… e todos, todos os pobres negros da África.

Faça, ó Jesus, que também eles Te conheçam e Te amem. Assim seja!”

 

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