Memórias do carvalho

Confessionário e carvalho, duas

‘vidas’ multisseculares 

     Pensando eu em contar o que vi e ouvi na minha longa vida ─ desde que o mundo é mundo ─, encontro um obstáculo inesperado. Veja só.

           A serpente ─ daquela que ludibriou Eva ─ procura desencorajar-me: um pedaço de pau quer ser escritor? o quê você tem para narrar? quem vai ler seus rabiscos?

          Não sou bambu para estar me balançando ao sabor dos ventos, mas achei conveniente partir à procura de reforço para fundamentar o meu propósito.

         Memórias de tudo Até que me lembrei de precedentes que não sei se você sabe. Pois existem memórias para tudo. Exemplos: a Condessa de Segur (1799-1874) escreveu “Memórias de um burro”; da pluma de Eça de Queiroz (1845-1900) temos “Memórias de uma forca” (feita de carvalho, por sinal); e memórias de um cabo de vassoura é o nome de outro livro. Então, não tive mais dúvidas.

     Sendo eu madeira de lei ─ obediente ao machado, à serra e aos seus auxiliares, pois fui criado para servir ─, estou bem colocado em lugares estratégicos, sob a forma de armários, mesas, cadeiras… Então, fica fácil recolher informações interessantes nos mais variados ambientes, para compor as memórias carvalhescas.

         Cabine do perdão Mas, refletindo melhor, resolvi concentrar a atenção em um só móvel, o confessionário, que tem finalidade única e específica: servir de suporte para as pessoas reatarem a amizade com Deus, através da confissão! Não duvido em chamar de cabine do perdão essa peça tradicional e tão emblemática! Só perde para o ambão e o altar.

         Serpente: você vai contar para todo mundo os pecados dos outros? Não tem medo de ser excomungado?

         Nem dei ouvidos a esse animal rastejante que vi introduzir o pecado na humanidade, e que terá a cabeça ferida pela mulher, segundo ameaça que ouvi do próprio Deus (cf Gênesis 3). Sei muito bem onde estou pisando.

         Até na Bíblia Aliás, sou madeira nobre, e meus tonéis são muito apreciados para guardar vinho.

           E creio ser oportuno lembrar que tenho antepassados célebres, inclusive registros em mais de vinte passagens bíblicas. O carvalho de Mambré passou para a História por ter assistido à aparição do Senhor a Abraão (Gênesis 18).

         Frondoso carvalho no Castelo de Vincennes, na França, contou-me que um rei francês gostava de ficar à sua sombra, ouvindo os apelos e pedidos de seus súditos, ricos ou pobres. Fazia isso algumas vezes por semana, e seu nome é São Luís IX, que reinou de 1226 a 1270.

         Provavelmente o marceneiro São José, pai legal de Jesus, trabalhou com a madeira carvalho. E pode ser que alguns de minha família tenham assistido à Paixão de Cristo. Mas, para não ser acusado de fazer afirmações sem provas, disse no condicional. Pequeno pormenor: na Palestina tem muito carvalho.

Maria em cima da azinheira: se as pessoas não se converterem, virão os castigos!

         É da família Agora, serpentezinha faladeira, ouça mais esta: uma das 600 espécies de carvalho se chama azinheira ou terebinto, sobre a qual, em Fátima, a Mãe do Criador escolheu para pousar várias vezes em 1917. Que honra ter ‘parente’ tão privilegiada! As mensagens destes segredos de Fátima tendem a ocupar importância cada vez mais relevante nos acontecimentos, e junto com suas narrativas estará sempre a carvalhesca azinheira, que, evidentemente, ouviu tudo…

         Ah! Estou a desviar do assunto proposto. Desculpe-me.

         Eu, confessionário de carvalho ─ simples cabine com cadeira para o padre e genuflexório para o penitente ─, quantas cenas presenciei, ao longo dos séculos, mundo afora! Não me refiro aos assuntos tratados entre confessor e penitente. Sei bem que não posso abusar da confiança em mim depositada, e sair por aí revelando segredos de confissão. Garanto: não sou madeira fofoqueira…

         Mas, escarafunchando a memória, vem à tona este caso, que é um belo exemplo: no tempo das Cruzadas, um jovem nobre confessa-se e recebe como penitência participar de batalhas na Terra Santa, para onde segue com entusiasmo, e torna-se um comandante aguerrido e vitorioso. #

 

Os profetas do Aleijadinho

Homens feios… belas esculturas!

Sobre os profetas de Congonhas do Campo, criados no século 18 pelo cinzel de Antônio Francisco Lisboa, faz interessantes observações o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995). Veja como a pluma pliniana pinta essas estátuas proféticas:

MODELOS DE HONRA, SÍMBOLOS DA FÉ — Entre as diversas e esplêndidas características da arte medieval, que nunca me canso de elogiar, há uma espécie de deformação que se reveste de uma seriedade, uma força e uma presença heráldica verdadeiramente magníficas.

Ora, algo parecido podemos encontrar nos profetas do Aleijadinho.

Em geral, homens feios. Porém, nada existe de mais belo, no Brasil, do que as célebres esculturas desse artista mineiro. São a sua obra-prima, considerada por todos os críticos modernos como filhas de inspiração medieval, embora a Idade Média há tempos já tivesse passado.

São peças góticas, estupendas, que poderiam figurar, sem perder o mérito, ao lado das imagens seculares que ornam as galerias e os nichos das maravilhosas catedrais europeias.

Deformações geniais — Nesses personagens talhados em pedra-sabão, o Aleijadinho soube exprimir de maneira esplêndida o que deve ser um profeta. E a deformidade deles, como nas melhores produções medievais, não faz senão acentuar a expressão simbólica que o gênio artístico desejou imprimir na sua obra.

Caixas toráxicas largas, pescoços taurinos, pernas um tanto curtas, musculosas e atarracadas, os braços compridos. As cabeças grandes em relação ao corpo, as orelhas avantajadas. Os olhos, igualmente exagerados para o contorno das faces, revelam a grandeza da alma. Porque ter os olhos desproporcionais para o rosto, assim como a cabeça desproporcional para o corpo, significa que tudo quanto é relativo ao conhecimento, é maior do que o funcional. Detalhe que ressalta ainda mais a eloquente representatividade das imagens.

Por sua vez, o desenho das barbas joga um papel peculiar na composição dessas figuras bíblicas: algumas volumosas, cheias, felpudas; outras, artisticamente talhadas, emoldurando os queixos salientes e vigorosos. Estas e aquelas simbolizando de modo extraordinário a força moral desses homens que atravessaram toda sorte de tormentas, de sofrimentos.

Superior certeza — E todos aparentam uma saúde de ferro, física e, sobretudo, espiritual. São instrumentos das recriminações divinas, polêmicos, determinados. Além disso, agiam por uma superior certeza, nobres, sérios, sublimes.

Esses profetas falavam, proclamavam, e suas vozes reboavam como o grave som do bronze.

Numa palavra, não conheço esculturas católicas que exprimam tanta fé como esses profetas do Aleijadinho, que rugem um rugido eterno de pedra, hieráticos, imóveis, impassíveis.

Figuras postas contra o firmamento, como se raspassem o Céu e tocassem quase em Deus. Eles não ficariam bem dentro de uma igreja.

A abóboda celeste é o ‘templo’ proporcional a eles, ao ar livre, ombreando as elegantes palmeiras que lhes servem de moldura. Sem dúvida, uma obra-prima de encher a alma! #

(Resumo com adaptações de: Luzes da Civilização Cristã – tomo 2 – p. 69-73)

 

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O Aleijadinho nasceu e faleceu em Vila Rica (1730-1814). Grande parte de sua obra encontra-se nas cidades mineiras de Tiradentes, São João del Rei, Mariana, Sabará, Congonhas do Campo e Ouro Preto (antiga Vila Rica).

Localizados na frente do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, o conjunto dos “doze profetas” foi criado pelo Aleijadinho entre 1800 e 1805.

Estão lá representados em pedra-sabão: Abdias, Amós, Baruc, Daniel, Ezequiel, Habacuc, Isaías, Jeremias, Joel, Jonas, Naum e Oseias.

 

Fra Angélico, o pintor católico

 

Nas suas pinturas, o sobrenatural

está sempre presente

 

Ao longo de sua História, a Igreja Católica tem dado origem a inúmeros talentos artísticos, com estilos e realizações tão diversos quanto belos e enriquecedores para a piedade cristã. Nessa constelação de talentos, porém, uma estrela sobressai pelo seu brilho mais intenso e atraente: o bem-aventurado Fra Angélico, com toda a justiça considerado o pintor católico por excelência.

Segundo se conta, ao pintar o rosto de Nossa Senhora, Ela lhe aparecia. Daí o caráter celeste das pinturas nas quais Ela está presente. São obras de um frescor sacral incomparável.

De acordo com os estudiosos de seus métodos, ele mesmo fabricava suas magníficas tintas, muitas vezes triturando pedras semi-preciosas, cujo pó, misturado a outros elementos, forneciam-lhe as melhores cores de sua extraordinária palheta.

Embora já vivesse na Renascença, foi um artista caracteristicamente medieval. Seus afrescos e retábulos são um reflexo fiel das almas que fizeram da Idade Média a época áurea da Cristandade. O sobrenatural está representado em todas as suas obras. Certa luminosidade está presente, de modo muito particular, nas virgens perpetuadas em maravilhosas composições de seu magistral pincel.

A virtude da pureza, quando bem guardada, proporciona as condições excelentes para o triunfo do espírito sobre a matéria. A pessoa pura é toda alma, toda transparente de luz.

Assim Fra Angélico pinta suas virgens reluzentes, como dotadas de um fulgor vindo de dentro para fora e que ilumina todo o seu ser. Porque o espírito é claro, enquanto a matéria é opaca. A intenção do artista é exatamente representar essa irradiação do espírito. É o pintor das virgens.

E dos anjos.

Seus célebres anjos têm uma expressão límpida, honesta, forte. Todos os contrastes extremos e harmônicos se encontram neles, numa síntese magnífica, fruto de uma forma de temperança extraordinária e perfeita. Diante da trombeta de um deles, vem-nos a pergunta: “Que música será esta?”

Ora, só alguém com muito senso do sobrenatural poderia retratar assim a Virgem Maria, anjos e santos. Daí podemos perceber como era a maravilhosa alma de Fra Angélico. #

(Resumido de: Plinio Corrêa de Oliveira – Luzes da Civilização Cristã

tomo 2 – p. 75 – O pintor do sobrenatural)

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Guidolino di Pietro

Fazendo de conta que é o próprio biografado que narra para você alguns traços da vida dele, veja quem foi Fra Angélico:

Numa famosa península, venho à luz em 1395, sob o nome de Guido, e assim me faz batizar meu pai, o Sr. Pedro. Daí meu primeiro nome: Guidolino de Pedro.

Como faz todo bambino, minhas estripulias dão muito trabalho a mamãe. Mas isso passa, e chegam os estudos, durante os quais passo de anos sem problemas.

Entrando para os dominicanos de Fiésole, meu nome sobe de tom: Frei João. Aí começo a pincelar tintas coloridas nas paredes brancas do convento, e todo mundo quer entrar para ver os trabalhos.

Tem início os numerosos pedidos a este João de Fiésole para espalhar o belo em casas religiosas, palácios e residências. Caindo alguns trocados em minha bolsa, destino-os para o sustento de meus confrades.

Não sei porque, mas apelidam-me de Fra Angelico (Frei Angélico). Será que é porque eu pinto anjos?… Ou porque sempre rezo antes de começar uma pintura? Pode ser também porque Maria Santíssima ‘pousa’ para mim quando vou representar a face dEla!

Depois de tantos anos tentando mostrar para as pessoas minha visão das personagens celestes, sou convocado para o Céu. Isto se dá em 1455, tendo eu 60 anos.

O último apelido que me deram na Terra é Beato Angélico, o que parece uma profecia, pois a beatificação veio, mas demorou um pouquinho: 500 anos…

Agora só falta ser canonizado e chamado de São Fra Angélico. Mas isso fica nas mãos de Deus, pois aqui no Paraíso não faz sentido estar pensando em ‘fazer carreira’…

Mesmo assim o Papa já me honrou com o prestigioso título de “Padroeiro Universal dos Artistas”. Com muito gosto peço ao Pai por esses meus colegas!