Aprendendo a confiar, com Judite

 

Exaltai e invocai o Senhor,

porque nos livra das mãos dos inimigos.

Vem lá uma imensa tropa de guerreiros?

É uma cavalaria de cobrir morros inteiros?

Cercam a cidade para o povo render-se ou morrer de fome?

Juram passar os jovens ao fio da espada?

Esmagar as criancinhas e levar as filhas para o cativeiro?

Nada disso faz Judite apavorar. Inspirada e sustentada por Deus, ela faz um plano arriscado, confia e reza:

“Senhor, dai-me força neste momento!”,

e desfecha um golpe mortal no inimigo opressor, o forte e poderoso general dos assírios. #

Judite destroça um exército

A heroica vitória do

povo de Deus

Numerosos são os invasores, mas não estão conseguindo conquistar Betúlia. E seus defensores, embora valentes, não se aventuram a enfrentar os 180 mil assírios fora das muralhas. Está criado um impasse.

Pior. Os agressores empregam uma tática cruel: fecham o acesso à cidade, não deixando entrar nem sair ninguém. A água é cortada.

Holofernes, o marechal, instalado no conforto de sua tenda, vive a vida de um pachá, esperando que a fome e a sede obriguem os hebreus a se renderem. E estes sabem que isto significaria terrível escravidão. Mas não têm meios de saírem dessa situação.

Redobram então as preces e sacrifícios ao Senhor Deus dos Exércitos, a única esperança.

E o auxílio divino surge de maneira totalmente inesperada! A ainda jovem mas respeitável viúva Judite, rica de bens, beleza e virtudes, se apresenta aos chefes, dizendo que conseguiria resolver o caso.

Deixem-me sair da cidade, e não me perguntem o que vou fazer.

Prepara com cuidado sua apresentação pessoal, como se fosse para uma solene festa, sem faltar perfumes e vistosas joias de ouro e pedras preciosas. Faz-se acompanhar de uma fiel criada, e leva alimentos a fim de não se contaminar com iguarias dos pagãos.

Para passar pelas barreiras inimigas, usa este discurso:

Tenho um recado confidencial de nossos chefes, para cochichar no ouvido do chefão de vocês.

Os sitiadores ─ com a vigilância enfraquecida por longa espera e muito vinho ─ as deixam passar, pois julgam que vieram trazer a tão esperada notícia da rendição. Em pouco tempo as duas damas se aproximam da espaçosa tenda do poderoso comandante dos exércitos de Nabucodonosor, de onde evolam alegres ruídos de festa.

Eles estão festejando a derrota de nossa gente. Mas não perdem por esperar sussurra à criada a corajosa Judite, que não cessa de orar.

O quase cambaleante Holofernes não coloca dificuldade em acolher tão distinta dama, a qual calibra bem seu discurso:

Senhor marechal, resolvi fugir antes que seja tarde demais… Pois garanto-lhe que em cinco dias, devido à fome e à sede, esta praça cairá por vossas mãos em poder do seu senhor, o grande rei Nabucodonosor! Outras conquistas virão em consequência. Para tanto, conte com mais informações que esta serva poderá lhe prestar, em confidência.

Essa conversa ilude o experiente militar, que aliás alimenta segundas intenções em seu desregrado coração (cf Judite 12, 10)… Rute e Judite são acomodadas da melhor forma possível, bem próximo aos aposentos de Holofernes, junto aos tesouros. Têm liberdade para circular, sair ao campo para rezar, facilitando assim a missão de nossa heroína, que pôde mapear a movimentação no alto comando agressor assírio.

Numa tardinha começa um banquete. Convidada, Judite comparece toda ataviada, para alegria do chefe, que não para de beber.

Chegada a noite, Holofernes está tão empanturrado com vinho, que tem de ser levado para a cama, onde cai num sono profundo, para felicidade das duas judias. A festa é encerrada.

Rute, chegou a hora! O pessoal todo já foi para suas respectivas tendas. Fique vigiando esta entrada, que eu vou fazer o trabalho!

Posso ajudar a senhora?

Sim, com suas preces. Eu já vi onde fica a espada dele, minha filha.

Pé ante pé, emocionada e com o coração batendo mais forte, Judite aproxima-se do leito do comandante, que está roncando. Pega na coluna a espada, e enquanto a retira da bainha, faz, confiante, esta prece:

“Senhor, dai-me força neste momento!”

Ela é prontamente atendida: ferindo-o duas vezes na nuca, decepa sua cabeça, que é colocada num saco (13, 9-11), deixando o corpo num charco de sangue (14, 14).

As duas saem tranquilamente pelo acampamento, contornam o vale e chegam às portas de Betúlia, onde a desolação não podia ser maior, pois já pensavam que elas estivessem presas ou mortas.

Entretanto, no soturno silêncio da noite, ecoa a voz cristalina de Judite aos guardas dos muros:

“Abri os portas, porque Deus manifestou o seu poder a favor de Israel!”

Entram, exibindo a cabeça do inimigo! Imagine quem puder, as explosões de entusiasmo daqueles corações antes angustiados!

Logo que foi possível fazer-se silêncio, Judite dirige ao povo inflamada proclamação, dando graças a Deus pela estupenda vitória, e por não ter sido atingida em sua integridade moral. Secundada pelos chefes do povo, ela instrui a todos que, logo ao raiar da aurora, coloquem a cabeça de Holofernes bem visível na muralha, e avancem para o combate! Quando os inimigos perceberem que o chefe foi degolado, haverá uma debandada geral! “O Senhor os esmagará sob vossos pés” (14, 4).

Dito e feito. Muitos mortos e prisioneiros. Os que conseguiram escapar, fugiram de mãos vazias. Os israelitas demoraram um mês para recolher os despojos, que enriqueceram toda a população. Os tesouros de Holofernes foram dados pelo povo a Judite, merecidamente.

O ato de coragem desta heroína marcou profundamente a história de Israel.

A Igreja Católica considera Judite uma prefigura de Nossa Senhora. #