Um leão em Belém

 

São Jerônimo, tradutor da Bíblia

e domador de leão

NUMA tarde fria de sábado, Caíque entra em casa chorando, porque um gato acabara de morder sua mão esquerda. Marlene, sua mãe, leva o menino ao hospital. Após voltar, quer saber o que o filho aprontou para receber essa mordida.

– Ah, manhê, eu vi na rua um gato com a orelha machucada, então fui passar merthiolate nela. Mas logo que eu segurei a orelha dele, o bicho me deu uma terrível mordida.

– Meu filho, você não deveria ter se incomodado com esse bichano. Se fosse o nosso gatinho, mas um gato de goteira, que mora na rua…

HISTÓRIA LEGAL – Eh, mas eu queria fazer igual o que um santo fez, mãe.

– Como assim? O exemplo de um santo?

– O Pe. Douglas não disse que a gente deve imitar os santos? A Eliane contou ontem no catecismo a história legal de um santo que curou um leão.

– Um leão?

– Sim. Tirou um espinho da pata do leão e colocou remédio…

– Mas o leão não atacou o santo? – indagou assustada Rosana, sua irmã mais velha.

– Não. Pelo contrário, ficou no convento, mansinho, como se fosse o Lulu.

– Qual o nome do santo?

– Ah, não me lembro. Só sei que nas pinturas dele tem sempre um leão juntinho dele. E também o leão deu um rugido tão terrível que os ladrões correram, e só conseguiram levar com eles o medo.

Rosana foi logo pesquisar em sites católicos, que santo era esse que conseguiu amansar um leão. Poucos cliques e apareceu um montão de informações. Começou a contar para sua mãe, mas esta achou melhor deixar para a hora do jantar.

– Tanto mais que a essa hora papai já terá chegado da reunião da Pastoral – acrescentou a filha.

MUITOS OUVIDOS – Manhê – indagou Caíque – posso convidar o Joãozinho, a Alice, o…

– Pode, filhinho, mas não passar de cinco crianças, senão a sala de jantar vai ficar igual lata de sardinha.

Dito e feito. Ou melhor, dito e não feito, pois bastou Caíque dar um giro pela vizinhança, que todos quiseram saber o porquê dele estar com a mãozinha enfaixada, e convidavam a si mesmos para ouvir a tão extraordinária história do santo que inspirou a atitude do coleguinha, mas só que deu no que deu…

– Rô, ligue para o pai e informe-o de tudo, e diga-lhe que devido ao frio vou fazer aquela sopa de aveia, tá?

Marlene leu o material a respeito do santo, e começou logo a preparar a refeição. Adivinhando o que ia acontecer, fez um panelaço de sopa, além de variados e apetitosos pratos salgados e doces.

Antes da hora marcada a criançada começou a chegar. Algumas mães vieram junto. Caíque estava radiante.

– Pessoal, a Rosana e a Marlene vão contar para nós a história de um santo que viveu somente 300 anos depois de Cristo – disse Ronaldo. Mas como bons católicos, antes de começar a comer vamos rezar uma oração?

– Vamos! – responderam em coro.

 Adriana e Nanci, mães de Joãozinho e de Alice assumiram o serviço da mesa. Quando todos estavam servidos Marlene começou:

– SÃO JERÔNIMO  foi um santo muito especial, que, como o Ronaldo acabou de dizer, viveu numa época próxima do tempo de Cristo. Ele fundou alguns mosteiros, traduziu para o latim a Bíblia inteirinha e ainda conseguiu, nas horas vagas, amansar um leão.

– Pois é, tia. Como foi? Ele pegou o leão pela juba? Agarrou o rabo dele? Hipnotizou o bicho? – todos perguntavam ao mesmo tempo.

– Deixem eu dar a vocês os traços da vida dele, para vocês saberem quem foi a pessoa, e que maravilhas Deus realiza por meio dos santos. Depois a Rô vai contar a parte do leão, tim tim por tim tim.

Nos três primeiros séculos da Igreja Católica, as pessoas que não gostavam dEla tentaram destruí-La de fora para dentro através da arma da violência e da perseguição. Mas o Imperador Constantino não permitiu, dando liberdade à Igreja no ano de 311. Essas pessoas inventaram então outras armas, as heresias, para tentar destruir a Igreja de dentro para fora.

O santo que domou um leão teve papel fundamental para impedir isso, juntamente com outros três santos.

 TRADUTOR DA BÍBLIA – Nascido na Dalmácia (atual Hungria), no ano de 342, de família católica, nobre e rica, Jerônimo estudou línguas, gramática e filosofia na cidade de Roma.

Batizado aos 18 anos, fez viagens de estudos por alguns países. Era muito inteligente e tinha ótima eloquência e sabedoria das ciências e das línguas.

A partir de determinado dia resolveu por em prática as virtudes católicas. Tornou-se modelo de penitência e santidade. Resolveu ser padre, e recebeu a ordenação sacerdotal quando tinha mais de 30 anos.

Bíblia Sagrada, o livro mais divulgado mundialmente

O Papa São Dâmaso percebeu que Jerônimo tinha muitas qualidades: escrevia com grande elegância em latim, e tinha aprendido hebraico para estudar a Bíblia no original. Então mandou-o rever e ordenar as traduções das Sagradas Escrituras, pois as que existiam eram imperfeitas.

Foram 15 anos de trabalho duro, resultando na Vulgata: tradução feita para a língua do povo ou vulgo, que naquela época era o latim. A tradução feita por São Jerônimo tornou-se a versão oficial da Bíblia, adotada pela Igreja, para os séculos futuros.

NA CIDADE NATAL DE CRISTO – Em 384, mudou-se para a Terra Santa, ou seja, foi morar na mesma região onde nasceu, viveu e morreu Jesus Cristo.

Aí fundou três conventos femininos, um masculino e uma hospedagem para peregrinos. Espalhou sua sabedoria e santidade a todos os seus discípulos e discípulas. Estendeu seu apostolado a toda a região, fazendo pregações desde a Palestina ao Egito. Até animais foram beneficiados por sua atuação.

Ele passou os últimos anos de sua vida numa gruta próxima à do Presépio onde nasceu o Menino Jesus. Daí dirigia os conventos, fazia seus estudos, escrevia cartas e se preparava para a glória eterna.

Para lá subiu aos 80 anos, em 30 de setembro de 420, aparecendo imediatamente a seu grande amigo Santo Agostinho, para dar-lhe uma ideia de como era o Céu!

Doutor da Igreja, seguro intérprete das Sagradas Escrituras, tradutor da Bíblia, luzeiro do mundo – são alguns dos nomes que as pessoas dão a ele (séc. IV-V).

UM LEÃO NO MOSTEIRO – Agora a Rosana vai narrar para vocês o que as vovós daquele tempo começaram a contar, e assim a história chegou até nós, sendo contada de geração em geração. Essa história que vocês vão ouvir mostra muito bem a santidade de São Jerônimo.

– Tia, é uma lenda, então?

– Exatamente, Joãozinho.

– Adriana, seu filho está sabido, hein! Todos terminaram de tomar a sopa?

– Sim! Está uma delícia, tia!

– Gente, é uma história muito legal. Segurem-se nas cadeiras! Fechem os olhos por um instante, recuem ao quarto século, e imaginem que estão perto de Jerusalém, nos jardins de um mosteiro, de onde vocês vêem o pátio e o grande portão de entrada do mesmo. À direita tem uma lagoa, cercada de muito verde. À esquerda um pequeno morro vestido de abundante vegetação.

O dia já está se despedindo para ter seu merecido repouso, e a noite vem chegando para começar sua jornada de trabalho. E Deus vai, devagarzinho, apagando o grande holofote chamado sol, e acendendo uma lâmpada fraquinha chamada lua, para não deixar ninguém na escuridão total.

É a hora em que os animais vão procurar tocas, buracos ou galhos para se refugiar. Mas quando a lua está escondida a escuridão aproveita e domina a noite. E os animais “bonzinhos’ que não estiverem bem abrigados podem facilmente cair nas garras dos animais “bandidos”, que gostam de caçar no escuro.

Um “coral” sem maestro, formado por animais que vivem às margens da lagoa, começa uma espécie de cantoria que dura a noite toda. “Música” ao vivo ideal para acompanhar uma diversão muito apreciada nos tempos antigos, mas que a televisão veio substituir, a conversa.

É noite de Natal. Os monges estão numa dessas conversas muito animadas, comentando o Evangelho e conferindo visualmente alguns lugares onde se passaram fatos da vida de Jesus.

– Querem acompanhar o diálogo?

– Sim! Queremos, tiazinha!

– Mas é bom ficarem atentos, pois coisas inesperadas podem acontecer por aqui… Acompanhem agora a conversa dos monges:

– “Olhe, atrás daquele monte fica a gruta onde Jesus nasceu. Ali ficava o Templo, tantas vezes visitado por Ele. Lá o Cenáculo, onde houve a Santa Ceia”.

– “Veja no alto o Monte Calvário, onde Ele morreu na Cruz para que nós pudéssemos ir para o Céu!”

– “Deixai vir a Mim os pequeninos porque deles é o Reino dos Céus” – foi ali que Ele pronunciou esta frase.

– “Voz que veio trazer o perdão e a misericórdia. Voz que faz brotar por toda parte numerosas ordens religiosas! Voz que…”

A animada conversa dos monges foi interrompida por um grito assustado de um dos presentes.

– Olhe, vem ali um leão!

– Não é leão não, é um cavalo.

– Não será o nosso jumento?

O animal vem caminhando, mas com uma pata levantada. Mas agora já dá para distinguir: é mesmo um leão, e gigantesco!

Ao primeiro alarme, em poucos segundos cada monge foge para um lugar seguro. Muros e árvores ficam apinhados!

O monge e o leão
São Jerônimo tratando a ferida da fera

Mas um ancião se levanta calmamente e vai ao encontro da fera! Imagine, quem puder, o espanto dos outros! O leão, entretanto, deixa sua ferocidade lá fora, aproxima-se e oferece uma pata ao corajoso monge, à maneira de cão ensinado. O monge segura-a com toda calma, nota que está espetada por espinhos e pede a um irmão menos medroso:

– Traga-me um balde com água para eu lavar a pata do leão.

Retira os espinhos com cuidado, aplica uma pomada e o ferimento rapidamente sara.

LEÃO DE CASA – O gentil cuidado agrada a fera, que vai e vem pacificamente entre homens, cabritos e galinhas, como se fosse um outro animal doméstico. Assim como os animais no Paraíso obedeciam a Adão, esse leão passa a fazer tudo que manda seu benfeitor, que não é outro senão o grande São Jerônimo.

Durante a Missa do Galo o animal “participa”, respeitosamente, num canto do pátio.

Os monges resolvem escolher um nome para o rei dos animais:

– Eu sugiro Leopax (leão da paz), pois é um bicho pacífico.

– Não. É melhor Leófero (leão feroz), para impor respeito aos estranhos.

– Muito bem! Leófero, então.

A essa altura uma coisa ninguém consegue evitar: a notícia está em toda a cidade, espalhada que foi pelo “jornal” da época, a língua…

Uns dizem: – Esse leão vai acabar devorando algum monge. Só acredito nessa história quando eu mesmo puxar o bigode da fera… – Mas, chegando lá…

E outros louvam a Deus pelas virtudes de São Jerônimo, com poderes sobre as forças da natureza.

SEGURANÇA FEROZ – Os monges logo se acostumam com o estranho visitante, que se torna a vedete do mosteiro. Fica tão prestativo que em pouco tempo está executando serviços para todos. É como se o leão dissesse:

– Dêem-me comida, que eu recompenso vocês com minhas habilidades…

Naqueles tempos, sem carro nem caminhão, jumento era um animal muito importante para o transporte de cargas. O convento também tem o seu, que carrega lenha para a cozinha e para as lareiras, agora acompanhado e protegido pelo leão.

E mais: que ladrão se atreveria a roubar cabras e frangos de um lugar protegido por tal vigia?

MAS, CADÊ O JUMENTO? – Um dia, entretanto, o leão fica cansado e dorme enquanto o jumento pasta. Mercadores de óleo egípcios roubam o jumento. Quando o leão acorda, dá falta dele e passa a procurá-lo. Com incrível ansiedade procura durante todo o dia, sem êxito. Volta e fica parado no portão do mosteiro.

Um monge desconfiado diz: – Olha, eu acho que esse bicho, na verdade, devorou o nosso burrico. Não lhe darei mais alimento.

– Nem eu.

Entretanto ninguém encontrou a prova do “crime”, ou seja, a ossada do jumento.

Mas na cidade a discussão está pegando fogo: uns dizendo que a fera, que já devorou um jumento, iria devorar todos os monges; outros confiavam em milagres: Frei Jerônimo, com a força de suas virtudes, podia muito bem manter domesticado um leão!

VINGANÇA LEONINA – Os monges passam a colocar lenha sobre ele, que a transporta para o convento, à maneira de burro de carga. Regularmente faz a sua tarefa, mas continua a procurar o seu colega.

– Tiazinha, conta o negócio dos ladrões.

– É o que vem agora, Caíque.

Um dia o leão sobe a uma colina e vê na estrada homens montados em alguns camelos e num jumento. Ele então vai de encontro a eles. Ao se aproximar reconhece o seu amigo e começa a rugir.

Os mercadores assustados, pulam no chão e saem numa correria louca, levando consigo só o que não conseguem deixar para trás: o medo…

Leófero não “pensa” duas vezes: conduz os animais para o convento, com todo o carregamento que levavam. Quando os monges vêem aquele conjunto estranho de um leão conduzindo jumento e camelos, correm logo para avisar São Jerônimo.

Mas o santo não duvida. Manda abrir o portão para a bicharada entrar, e ordena :

“Tirem a carga dos animais, lavem suas patas e dêem comida a eles.

Feito isso Leófero começa a rugir e a balançar o rabo alegremente.

Mas quem disse que os egípcios ficariam sem suas mercadorias e seus camelos? Vão ao mosteiro, mas humildemente, pedindo perdão, e oferecendo aos monges metade do carregamento de óleo. São Jerônimo os recebe com muita atenção e aceita o donativo. Eles despedem-se e vão embora alegres.

“Vejam, meus irmãos, o que Deus tinha em mente quando nos mandou o seu leão!” – rematou São Jerônimo.

Leófero continuou servindo no convento até a morte de seu protetor. Depois, o bicho sumiu e até hoje ninguém sabe para onde foi. Nem as vovós…

E vocês ficaram sabendo, por essa história, por quê nas pinturas representando São Jerônimo tem sempre um leão ao seu lado.

IMITAR OU ADMIRAR?

Ronaldo: – Gostaram da história?

– Sim! Muito legal! Valeu, tio!

– Perceberam por quê o Caíque queria curar a orelha do gato?

– Sim, ele quis imitar o São Jerônimo.

– É. Mas algumas coisas os santos fazem inspirados por Deus. São Jerônimo curou o leão porque ele tinha um grande amor pelos animais, que são criaturas de Deus. Nós também devemos imitar São Jerônimo e amar a natureza e os animais também. Mas não podemos sair pela rua querendo curar a orelha de um gato sem ser veterinário, entenderam?

Os santos são modelos de vida e de virtudes para nós e por isso devemos seguir os seus ensinamentos aplicando às nossas vidas nos dias de hoje.

Nossa Senhora é mais santa do que todos os santos. Ela é a criatura mais perfeita que já existiu, pois é a Mãe de Deus. Devemos rezar sempre pedindo que Nossa Senhora nos ajude a ser boas crianças e a seguir os exemplos que os santos nos deram em vida.

E assim Ronaldo concluiu aquela bela história do santo que curou o leão…

Marlene: – Criançada, se gostaram, nossa casa está à disposição de vocês. #

A Redenção, na plenitude dos tempos

 

Por quê Cristo nasceu só depois de 4.000 anos

da criação do homem?

 

  As palavras voam, os escritos permanecem. O provérbio não especifica, mas parece que voam lentamente, pois as informações sobre o começo da humanidade demoram uns 2.500 anos para pousarem no Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).

Pentateuco
Rolos dos 5 livros do Pentateuco Fonte: Cleofas

 Com efeito, esses primeiros cinco livros do Antigo Testamento foram escritos por volta do ano 2.000 a.C.. Ainda bem que isto se deu antes que as palavras se perdessem no esquecimento, e a humanidade voltasse as costas a seu Criador. Pois é nesse período histórico ─ dominado pelo paganismo ─ que consta a existência de alfabetos distintos, em quatro cantos do mundo: Mesopotâmia, Egito, China e México.

 Então, será de bom tom supor-se que a invenção da escrita tenha sido feita com a participação de Deus, desejoso de transmitir ao homem as suas Leis, de maneira não volátil. No Monte Sinai esses mandamentos divinos gravados em pedra sinalizaram para sempre a conduta que a humanidade devia seguir. Realizou Deus, desse modo, um dos importantes passos para se operar a Redenção, chegada a plenitude dos tempos.

 O porquê da demora – “(…) o Salvador veio na plenitude do tempo conforme Epístola aos Gálatas, 4, 4. Diz Agostinho: ‘Muitos se perguntam por que Cristo não veio antes. É que a plenitude do tempo ainda não havia chegado, de acordo com a disposição d’Aquele por quem todas as coisas foram feitas no tempo. Assim que chegou a plenitude do tempo, veio Aquele que devia nos libertar do tempo. Uma vez libertos do tempo, chegaremos a essa eternidade em que o tempo terá desaparecido’.

 “À doença universal, forneceu um remédio universal, o que faz Agostinho dizer: ‘Então chegou o grande médico, quando todo o universo era um grande enfermo’ (JACOPO DE VARAZZE. Legenda Áurea – Vidas de Santos. Cia. das Letras – São Paulo, 2003, p. 48).

 Com essas indicações, fica mais fácil de entender a demora da vinda do Messias, sobretudo se considerarmos o que diz São Gregório de Nissa (330-395), respeitado comentador das Sagradas Escrituras:

Caim mata seu irmão Fonte: Kerigma

 “Eis a razão por que o Divino Médico não aplicou o seu tratamento ao mundo imediatamente após o ciúme de Caim e o assassínio de Abel, seu irmão. […] Foi quando o vício atingiu o seu auge e não restava nenhuma perversidade que os homens não tivessem ousado, que Deus começou a tratar a doença. Não no seu início, mas no seu desenvolvimento pleno.

 “Desse modo, o tratamento divino pôde abarcar todas as enfermidades humanas” (Grande Catequese, 29-30 – grifos nossos).

 Jesus e a escrita – É interessante notar que Cristo só tenha nascido quando a escrita estava bem desenvolvida. Assim, a Boa Nova pôde ser divulgada também através desse meio.

 Jesus não fez uso dela, mas seus seguidores o fizeram. Haja vista os Evangelhos, as cartas de São Paulo e dos outros Apóstolos, os Atos e o Apocalipse. Ou seja, o Novo Testamento.

 Se bem que a fé entra pelos ouvidos (cf São Paulo aos Romanos, 10,17) ─ sobretudo nas homilias dominicais ─, não é fácil conceber como ela teria chegado até nossos dias, se não fosse a escrita, ressalvado o princípio gabrielino de que para Deus nada é impossível (cf Lucas 1-37).

 Coluna da Fé – “Nós só conhecemos o plano da nossa salvação através daqueles que nos fizeram chegar o Evangelho, não por outros. Este Evangelho foi primeiro pregado pelos Apóstolos. Depois, por vontade de Deus, eles o transmitiram a nós nas Escrituras, para que se tornasse “coluna e sustentáculo” da nossa fé (1 Tim 3,15)”, escreveu o teólogo, Bispo e Santo Ireneu de Lyon, passados 170 anos da morte e ressurreição de Cristo (Contra as heresias, III, 1 – grifos nossos).

 Portanto, não navega em erro quem afirmar a existência de colaboração entre a fala e a escrita e vice-versa, a qual perdura até os dias de hoje. Para a preparação das homilias, os pregadores recorrem aos livros sagrados e a homiliários. E quando estão no ambão, podem receber luzes do Divino Espírito Santo, originando daí novos escritos: “coisas novas e velhas” retiradas do tesouro (cf Mateus 13, 52). #

As águas e a Bíblia

O elemento aquático na História Sagrada

ESCRITA pelos dedos de Deus, a História da Salvação é repleta de contrastes e maravilhas. Nisso, a criatura água está presente, de vários modos, a começar pelo primeiro capítulo do Gênesis.

Depois de Noé, sua arca e o dilúvio, vemos Moisés, salvo das águas do Nilo, sendo escolhido por Deus para tirar seu povo da escravidão. Depois das sete pragas, a espetacular saída do Egito, em que as águas do Mar Vermelho se abrem para os perseguidos passarem, e se fecham sobre os perseguidores.

No deserto, o maná de todos os sabores, a serpente de bronze que cura, as cristalinas águas jorrando das pedras.

Após 40 anos, o povo eleito chega à terra prometida. A travessia do Rio Jordão é outro episódio relacionado com o elemento aquático.

Passam-se os séculos e as gerações. Nasce o Salvador, que fixa residência numa região de abundantes águas. É batizado no rio e atrai discípulos entre os pescadores. Acalma tempestades, multiplica peixes, realiza pescas milagrosas.

O cenário não poderia ser outro senão um grande lago ou pequeno mar, situado ao norte da Palestina. Pequeno? Nenhum outro tem a honra e a glória de ver Cristo (e Pedro…) caminhando sobre suas águas!

...fez discípulos entre os pescadores
Jesus andou sobre estas águas…

Três nomes e muitas glóriasO Mar da Galileia, de fato é um lago de água doce, medindo 13 por 21 km, a 213 m abaixo do nível de seu vizinho, o Mediterrâneo. Este sim, um autêntico mar, que, entretanto, se pudesse sentir, teria santa inveja de seu vizinho menor, palco de tantos episódios bíblicos!

Distante 110 km de Jerusalém, chamam-no também de Lago de Genesaré.

Tendo Cristo uns 18 anos, foi inaugurada às suas margens a nova capital da Galileia, chamada Tiberíades, em homenagem ao imperador romano Tibério César. Então, suas águas foram rebatizadas com o nome de Lago de Tiberíades… Mas essa mudança não agradou à população, que continuou usando o secular nome de Mar da Galileia.

Para beneficiar os habitantes, atua ’em parceria’ com o Rio Jordão, do qual recebe toda a água, pelo norte, e depois de distribuir do precioso líquido para cidades e campos, ainda o devolve ao mesmo rio, pelo sul. Não guarda nada para si. Nem água, nem peixes.

Cristo e as águas Levando em conta esses antecedentes, não espanta que tão generosas águas tenham sido escolhidas pelo Divino Mestre para fatos tão grandiosos!

Pois foi de seus peixes que Ele se serviu para multiplicar, alimentando assim milhares de pessoas.

Alimentou também a fé de muitos, pela palavra e pelo exemplo: caminhou sobre suas águas, para fortificar a fé de Pedro. Só de Pedro? Quando a barca esteve a pique de naufragar durante uma tempestade, ordenou a esta que se acalmasse. E foi prontamente obedecido.

E assim, o Divino Pescador pescou alguns pescadores do lago, que se tornaram pescadores de almas: Pedro e André, Tiago e João, Tomé e Natanael. Ou seja, 50%de seus Apóstolos.

Quantas vezes Cristo subiu numa barca e se afastou da praia para melhor se fazer ouvir e ser visto pelas multidões. E de seus lábios sagrados saíam perenes ensinamentos.

Quem estivesse nas imediações do lago, por ocasião do Sermão da Montanha, poderia ter presenciado Jesus falar ao povo sobre as bem-aventuranças, lá no alto da colina:

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos…”

Esse sermão é considerado um resumo do Cristianismo, o texto da Nova Lei. Sobre ele comenta um ex-arcebispo de São Paulo:

O Deus feito homem a promulga sobre uma montanha verdejante, cercado dos seus discípulos e de grande multidão de povo.

A palavra de Deus escapa-lhe dos lábios fluente e acessível ainda aos mais ignorantes.

Ela diz toda a verdade que os homens devem saber, ensina tudo o que é preciso fazer para a salvação, anima, fortifica, dirige e eleva.

(…) é o mais belo e mais tocante ensinamento que tenham ouvido os homens”.

(D. Duarte Leopoldo e Silva. Concordância dos Santos Evangelhos. S. Paulo: LTR, 1998, 7ª ed., p. 99).

Com estudos na teologia bíblica, o tema água ─ que é citado quase 400 vezes nas Sagradas Escrituras ─ pode ter mais desdobramentos. Por exemplo, o uso universal desse precioso líquido no batismo. Havendo oportunidade, voltaremos ao assunto.