Família Paciência

Menino ferido fica impaciente e colega transmite doutrina católica sobre sofrimento

Dois colegas – Pacífico e Isaltino – estão voltando para casa, a pé. Traz cada qual uma sacola vermelha com amostras variadas da vegetação regional, para apresentar à professora de botânica. Estão alegres porque vai valer para nota, sem necessidade de estudar.

Cuidado! Vem lá um touro bravo!

Atravessam agora um grande bosque, mas percebem que a escuridão está vindo ao encontro deles.

Mas se fosse só a escuridão…

– Tino, vem lá um touro bravo! – exclama Pacífico.

Mal deu tempo de subirem numa árvore. Pequena, por sinal.

Se dependesse de Pacífico, os dois ficariam bem quietos, para que o animal não se exaltasse e procurasse agredi-los. Já ligou pedindo socorro, agora é só esperar com paciência. E sobretudo rezar.

Mas, quem disse que Isaltino procederia assim? Apesar dos apelos do colega, tanto se exalta – inclusive provocando o boi com a sacola vermelha –, que este começa a sacudir a árvore. Mas nosso valentinho não desiste, julgando com isso afastar o animal.

Pacífico avisa o colega que está chegando o veículo que veio lhes socorrer, mas este nem consegue ouvir, pois, já esborrachado no chão, começa a receber violentas chifradas.

Ainda bem que chega a viatura, e o boi é expulso. Mas Isaltino não consegue se mover, devido aos ferimentos. É levado para o hospital, onde fica por dois dias.

Em casa, uma das visitas é do colega, que comenta:

– Se você tivesse tido um pouco de paciência…

– Ih! Vem você também falar esta palavra… Basta o que já ouvi de sua avó, de seu pai, de sua tia… Eu até já arranjei apelidos para eles: “Família Paciência”, “Dona Resignação”, “Sr. Juízo”, “Srta. Calma” etc. Para você não precisa mudar nada: é Pacífico mesmo.

– Mas eles não têm razão?

– Pode ser que tenham, mas eu nunca consigo ficar calmo. Agora vem estas dores, estes curativos; eu não vejo a hora de arrancá-los todos. Insuportável!

As feridas da alma

– Deixa disso, Tino. Olha que interessante o que aprendemos hoje na aula de crisma. É pena que você não pôde estar presente.

“Não sejamos tão impacientes no sofrimento. A impaciência duplica-nos a dor. O ferido necessita de repouso. Quanto mais ele se agita, arranha, coça e mexe as feridas, tanto pior. Sofre mais e até se arrisca a uma infecção, que pode ser fatal.

“Dá-se o mesmo com as feridas da alma, as feridas do coração! Quando elas aparecem, devemos ir logo ao Médico Divino, e Ele, tão misericordioso, há de pensá-las carinhosamente, derramando sobre as mesmas o bálsamo suavíssimo do seu Amor: Vinde a Mim, Eu vos aliviarei” (cf O Breviário da Confiança – Mons. Ascânio Brandão).

– Éh! Pacífico, pensando bem, minha alma está precisando muito desse bálsamo…

– Medite neste salmo, Isaltino, e depois reze uma Ave Maria. A Mãe de Misericórdia consegue solucionar nossos problemas.

“Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos” (Salmo 40, 1-2).

A arte de sofrer bem

O apelido que Isaltino deu à família de Pacífico, pode, com muita propriedade, ser aplicado ao campo das virtudes sobrenaturais. Podemos considerar como pertencentes a essa Família, além da Paciência, a Calma, o Equilíbrio, a Resignação, a Serenidade, a Tranquilidade, a Conformidade etc.

Tanto mais que paciência deriva do latim, pati = padecer. Por isso, essa virtude é a capacidade de padecer dignamente, a arte de sofrer bem. Quando ajudada pela graça divina, a paciência cristã é a virtude que nos dá ânimo para sofrer e suportar as contrariedades e a dor, com fé, esperança e amor. Especialmente quando se prolongam (cf  A Paciência – Pe. Francisco Faus).

E assim, na vida de todos os dias, podemos ir acumulando créditos para a bem-aventurança eterna.

O alazão e o Pai-Nosso

Pierre se distrai e deixa de ganhar um cavalo.

É possível rezar sem distração?

Lá no longínquo século décimo, um santo e respeitado monge, com hábito branco, preferindo a montaria à carruagem, viaja em seu possante cavalo alazão, no interior da França.

De mansinho, emparelha-se com ele um camponês, Pierre, encarapitado no seu pangaré. Pede-lhe a bênção, e entabulam animada prosa. Sai de tudo. A colheita, as estripulias do caçulinha, as devoções.

Nesse ponto, o religioso se queixa de que, por causa das preocupações com os assuntos da abadia, às vezes não consegue rezar com a atenção devida. Veja só a reação do nosso camponês:

─ Como é, Senhor Abade? Então o senhor se distrai quando reza? Palavra de honra, julgava que fosse santo! Eu nunca me distraio nas orações, mesmo que alguém passe a tilintar moedas de ouro a meu lado ou a tocar trombetas!

Desafio – Ele sorri, com uma ponta de desconfiança, questionando se é possível alguém rezar sem distrações. Ante a reafirmação do lavrador, o monge propõe um desafio:

“O senhor me dá também o arreio?”

─ Pierre, se você rezar agora um Pai-Nosso sem se distrair, dou-lhe este cavalo em que estou montado!

Surpreso, o homem faz festinhas na cabeça do animal, e exclama:

─ Cavalo forte e elegante, você já é meu!

O camponês acrescenta que, para o Sr. Abade não ficar a pé, ele lhe dará o seu pangaré. Hoje, seria o mesmo que trocar uma moto BMW 1600 por uma Honda Pop.

E tem início a prova. Pierre inclina a cabeça, põe o rosto entre as mãos, e reza baixinho, pausadamente: “Pai-Nosso, que estais nos Céus…” Quando chega no “O pão nosso de cada dia…”, faz uma pausa, levanta a cabeça e pergunta:

─ Diga-me, padre Abade, o senhor me dá também o arreio?

─ Meu filho, que pena! Nem arreio, nem cavalo, nem nada, porque você já se distraiu!

Lançando um olhar saudoso para o animal, Pierre suspira:

─ Ái, que rico cavalinho eu perdi agora! Sem querer, eu fiz uma loucura. A culpa é da minha imaginação.

 O viajante não é outro senão o grande São Bernardo de Claraval, um dos maiores santos da Igreja, fundador da Ordem de Cister, conselheiro de Papas e de reis, promotor da segunda Cruzada, pregador e poeta.

E a solução? – Há duas espécies de distrações durante nossos atos de piedade: as exteriores, que são, por exemplo, olhar para o lado, prestar atenção nas

Reserve para Deus seu melhor tempo

pessoas que entram e saem, ler alguma coisa, fazer comentários etc. Tais distrações podemos e devemos evitar.

Porém, distrações interiores ou mentais, ninguém consegue livrar-se delas. Santa Teresa de Ávila dizia que “a imaginação é a louca da casa”, que fica sempre vagueando em nossa cabeça, como um filme do que se passa no dia, ou as cenas que o demônio quer fazer girar em nosso interior (Cf. Distrações na oração. Jornal “A Presença” n. 241 – set 2004 – Igreja de São Mamede – Lisboa).

Tais distrações, embora inevitáveis ─ pois boa parte é causada por cansaço, fatores psicológicos etc ─, podem ser amenizadas mediante certos cuidados, por exemplo, fazendo os exercícios de piedade na melhor hora do dia. Em todo caso, nunca devemos dar às distrações nosso consentimento.

Nunca deixe de fazer as orações costumeiras. Procure não dar trelas à “louca da casa”.